Archive for junho, 2008

(abertura)

uma poesia deserta, texto de pedra e secura.
poesia de ferreiro: metal e martelo.
uma poesia brasa candente. cozer tudo,
ato do verso, dure tanto ou nada.

30 junho, 2008 at 12:26 am 7 comentários

conflito

a poesia se desloca por opostos.

30 junho, 2008 at 12:17 am 6 comentários

varas de vida que trago das poeiras

quantos antros e destinos me ataram
pelo avesso da ilha.
mágicas só revertem a metade das noites
que as outras são concretos.

quantos avos e destinos me atormentaram
o rosto e o osso;
curvei-me a todos para estar perfeito.

a todos busquei ver como água e pedra:
com o olho, retalhei-lhes as faces
e o contíguo dos lábios.

pólvoras deixaram meu corpo em frangalhos.
mas atei-lhe os nós e os pedaços
como quem range à utopia.
fiz ver que vales e montanhas são nacos da vida.
no fôlego quente da espécie.

quando surgi de mim, fiquei varrido
e meu estado de coisa correu solto.

30 junho, 2008 at 12:01 am 5 comentários

(raso de delírio: o meu cão morto)

rio acima duas canções se fazem.
alargado meu peito desfalece.
que arcos hão de vir, sombriamente,
falar, cerrado puro, do meu lastro?

e se os risonhos da manhã me deceparem?

acaso sou poesia ou sou manhã?
acaso uma nascente é tão nascente
que só se faça romper pela clausura?

vou de saberes, que saberes estes
são uivos que caminho pelas águas
e águas são de um sólido mais brusco
que desfalecem os ranços já chegados.
cauda selvagem, se me sobra toda
a vida por parir mais que selvagem.

29 junho, 2008 at 12:47 am 6 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – IX

onde o instante da vaca é universo
onde o estado do boi pode caminho
a rua do seu corpo é só poeira
o valo do seu corpo é vau-de-rio
bandeira no horizonte é saia morta
que faz marruco (dizer) estripulia.

manuel carrega em pelo o horizonte
e sempre diz de ser belo vaqueiro.

29 junho, 2008 at 12:45 am 3 comentários

cálida me chega a tua noite

tua voz de tão solene me carrega
de tanta e tão travada reticência
se solta, me sentir, noite e manhã.

28 junho, 2008 at 12:27 am 6 comentários

múltiplo

1- atear fogo no tempo, revelar destroços.
2- haver desmãos nos ventos, trazer montanhas na boca.
3- resvalar a noite, como se fosse noite.
4- ser o tamanho do tempo revelado.
5- atar o dízimo da ausência.

adentro o verde-cinza da manhã,
carroça do corpo se revela dente,
astros aduzem sua força bruta,
uma queimada corrói face e estômago.

28 junho, 2008 at 12:21 am 2 comentários

similares das margens

éramos dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos
de mundo, tudo. alargado coração em corpo.

27 junho, 2008 at 12:20 am 6 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – VIII

se cada um valesse por cerrados
os bois, manuel, seriam mais velozes!
o cavalo, estreito no seu corpo,
seria sua roupa matinal.
os bois, manuel, são pura transcendência.
e o espaço que lhe sobra, pura noite,
diz, singela, gargantas de eloqüência
e nitidez velada, mão afoita

de ver facão vazado de espanto
coser a pele de homem e coser
o boi, manuel, revela cada encanto
que nosso corpo não cabe por caber.

vadio manuel estrada
vadio manuel daqui
manuel, estampa e gargalo,
manuel, estrago e

buscado saber da morte
por garrucha e devaneio
estrada é morte de outrem
cavalo, estrada e

estrada, manuel, tem morte
que nunca chega no fim
nos cabe o espanto da morte
(nos cabe a morte e o espanto)

26 junho, 2008 at 12:07 am 3 comentários

somos a face de querer ser noite

eu quero carregar a tua sombra
como lastro do olho que me habita.
teu elo, se existe, pode ser
um calo em ricochete pela alma.

estados de olhar são puros astros
amadas no horizonte, puro vento
como pedra se faz no corpo ardente
e estrada a recompensa de uma mão.

26 junho, 2008 at 12:00 am 2 comentários

noite vermelha

a fúria, a tortura, os desejos
são caldos que engrossam a noite.
tensos, passamos pó sobre as feridas,
lambemos nossas almas de pedra,
reviramos cada estalo, cada medo.

os ruídos adentram nossa veia
como fogo da morte.
nada nos diz o silêncio. sobre nós
as formigas ressaltam seus desejos.

a chuva perdida sobre as portas
entrava as dobradiças, enferruja os homens.
a veia de minas, o chão de minas
nos contunde.

resta buscar o que sobrou do amor.

25 junho, 2008 at 12:45 am 8 comentários

desbravamento

às vezes o texto é um cipoal.
inclusive pra mim.
vencida a luta de abrir caminho, vamos.

25 junho, 2008 at 12:15 am 2 comentários

visita

24 junho, 2008 at 11:52 pm 2 comentários

alvor

posso regar a noite de auroras.

24 junho, 2008 at 12:40 am 8 comentários

sobram-me tamanhos

poder ser tudo, menos que ser louco
a carregar destroços pelo tempo.
atar o riso na cara, morder ranços
e ter no peito a véspera do açoite.
acaso ser um outro, em entretanto
fazer a nuvem reter seus continentes.

tanta é a morte que vivo sou tamanho.

24 junho, 2008 at 12:10 am 6 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – VII

uns arrebóis de lenda,
uns bois de criação,
extrato de secura:
irmão.

o hálito cerrado
em corpo de varão
estado todo:
vão.

revela o cavalo
do peito, grão
poeira pesada:
mão.

fratura desossada.
desolação.
vida arriada:
não.

24 junho, 2008 at 12:00 am 2 comentários

tua imensidão

tua face me redime o tempo. o campo
do teu gesto, a fala da tua fala, densamente
me dormem.

23 junho, 2008 at 12:32 am 12 comentários

flores I

Carlos Scliar – Flores I (1971)

Técnica: Vinil sobre tela colado em madeira, 75 x 55 cm

23 junho, 2008 at 12:20 am 7 comentários

apropriação

renata: hoje sou eu que me aproprio do seu verso.

o manto que aquece
é o mesmo que aprisiona
o corpo que adormece
é o mesmo que abandona
a mão que diz a prece
é a mesma que sodoma
a boca que te tece
é a mesma que te toma

23 junho, 2008 at 12:02 am Deixe um comentário

essência

posso ser vento e água numa noite.
poeta é fogo de esgarçar vitral.

22 junho, 2008 at 8:08 am 4 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – VI

manuelzão bebeu, de sede,
02 águas de 02 rios.
amontado num pavio
virou augusto matraga.
quando bebe este quilate
manuel quase que late
destravado, tudo luz
de beber num arremate.

sua sede desmanchou
03 procela desabada
em viola, trupicou
fez o olho ser nascente.
arrancou melhor com o dente
que à faca. extasiado.

noite. sombra pelo rio
de manuel, largo e profundo
manuel, maior que o mundo,
bem menor que manuel

manuelzão desassombrado
pensando saber da vida
lambia cada cerrado
sombrava, pura alquimia.
na alma, cada bezerro.
no corpo, cavalo cada.

22 junho, 2008 at 12:15 am 2 comentários

argumento para patrícia

se alguém morder a imagem do meu corpo,
a pele, a carne, o osso e outras mazelas
irá dizer o quanto sou medonho.
o espaço de alavanca do meu olho,
o trilho sincopado de minha trégua
vicejam aos acordados nas manhãs.

se instante fosse luz, quase somente
estado se faria, e eu, entrevado
de voz, escaparia pelas frestas.

o mundo é mundo. eu, bravata
de estalos que sofrem madrugada

22 junho, 2008 at 12:10 am 6 comentários

corpo redemunho

um sexto do meu corpo cabe tudo.
os demais sobram a percorrer as águas.

21 junho, 2008 at 2:38 am 8 comentários

reais como o astro-rei

” Romério,
Mas este é um carinho para um amigo que se sente de verdade!
Teu lado gratidão e um comentário feito poema. Muito bonito do Xico Santos. Vou verificar se tem blog… inevitável !
Beijo da… Ima Sumac “



Amigo,

queria tanto que o Sol explodindo em calor nesta manhã meio abandonada conseguisse explicar pro meu intelecto que a dna. Ima Sumac é real e não está nenhum pouquinho zombando da simplicidade do meu texto-carinho… (vírgulas causariam soluços).
Se ela for real vou empinar o nariz mais ainda… uns 7cm.
Rapaz, esse seu blog já inunda uma vontade de outro livro!
Bom dia!

Xico Santos

21 junho, 2008 at 2:35 am 2 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – V

tenazes de manuel são como poldras
que sopram, juvenis, qualquer cidade.
manuel se faz de rubro cavaleiro
que carrega ademanes no seu ventre.

onde manuel latiu foi que se soube
do cão que travessava sua alma.

e por manuel se fez alma empenada.

o vento do facão recorta o mundo
em quadras. almas amenas,
duras espadas.

“se bezerro fosse noite
eu não mudava daqui”.

21 junho, 2008 at 12:50 am Deixe um comentário

quero dizer que manuelzão foi boi – IV

este manuel é teso e o cavalo
(um) puro arreio que mistura o tempo.
viés de sua garganta traz garrucha
e valo de extensão desesperada.
sertão lhe vale quanto, o olho, o estado,
contém o corpo em gado, cada veia.

quando manuel se vê desesperado
é que montanha lhe redou o corpo
pela planura que sempre carrega.
quando manuel desdiz é que foi solto
o bicho contendor de uma vingança
vazada na garrucha e no ferrão.

quero dizer que manuelzão foi boi.

20 junho, 2008 at 2:42 am Deixe um comentário

(zé limeira incarnado)

zé limeira se apoitô
na cadera do inforcado
quem dá remédio é dotô
quem leva o tiro é o viado
limeira num caducô
eta trem bão de danado.
dona renata chegô.
limeira tá constipado
quem carrega uma fulô
num sabe de delegado
são francisco se abraçô
com um bicho brabo danado
quem acha que é cantadô
contra o limeira é coitado.

19 junho, 2008 at 8:14 am 5 comentários

(zé limeira)

zé limeira ao seu dispor
do tino, retino, tinta
meu olho caiu no amor
duma cabrocha sem pinta.

burro velho é picadero
da falsa ilusão da varge
quando avança, home soltero
enfrenta mestre bocage
o seu brilho verdadero
é pior que a pior laje
briga de sombra é cuero
bestera poca é bobage
ingrisia de barbero
é pra fazê malandrage
moleskin, caneta, isquero
me dispido nessa marge.

19 junho, 2008 at 12:09 am 2 comentários

a mão apurada de carlos scliar

Ferreira Gullar

Creio que foi Sartre quem disse que a morte completa a obra do artista, no sentido de que lhe põe o ponto final e com isso nos permite vê-la inteira: nada lhe será acrescentado e nada lhe falta, mesmo porque, se algo lhe falta essa falta é parte dela. Penso nisto, agora, no momento em que a notícia da morte de Carlos Scliar me leva a debruçar sobre o trabalho que ele realizou durante 60 anos de atividade artística. (mais…)

19 junho, 2008 at 12:01 am Deixe um comentário

impacado

zé limeira aferruô
um menestré de biriba
uma cobra impacô
bem pro lá da paraíba
dona meg se chegô
coloco tudo de riba.

19 junho, 2008 at 12:01 am 5 comentários

esperança

Semana Santa em Ouro Preto
Foto por Eduardo Costa

18 junho, 2008 at 9:30 am Deixe um comentário

manuel se fez verdade por cavalo

o manuelzão foi o vaqueiro que conduziu o guimarães rosa pelo sertão de minas gerais. o rosa escreveu um livro sobre ele, “manuelzão”.

várias décadas depois nos tornamos amigos e viajamos muito, juntos. ele morreu em 1996, com 92 anos. falo sempre dele, o grande vaqueiro.

sua história é intensa. gosto de dizer que o guimarães rosa é um dos personagens do manuelzão.

18 junho, 2008 at 8:26 am 2 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – III

ser boi, cone e pedal, pode ser grave
se em manuel remete antecedências.
o espaço que revelo é pura noite
de solidão, cerrado e eloqüência.

o árido instante, extrato e muro,
requer o olho atiçado: ventre
do galho traz mais decisões.
se o espaço brumoso de manuel

requer seja o cavalo puro intento
de reaver o tanto já perdido.

toda querela não cabe imensidão.

18 junho, 2008 at 6:00 am Deixe um comentário

efêmero

aquilo que é tenaz me seja breve
como a jamanta que purga pela estrada
a doce adjacência da viagem.

estanhos nos arranham cada instante
e o brusco da vida se prepara
ao morder anzóis sem um talento

quando virar o outono serei breve.

18 junho, 2008 at 12:28 am 6 comentários

Dos visitantes poéticos

Romério,

minha primeira visita já pega a fogueira acesa… labaredas solitárias cortando o azul da noite… pinhão na brasa, quentão na boca… o vento desmancha os cabelos dela, enquanto sorri aquele riso de outras festas… eu (criança), soltando “chinezinho”… enquanto a urgência me consome.

Teu sítio, minha festa!
Xico Santos

17 junho, 2008 at 1:51 pm 2 comentários

“resta buscar o que sobrou do amor”

chico me requer um poema da paixão
que não caiba mazelas.
um poema com uma paixão
sem vidraças quebradas,
sem dedos cortados,
sem esquisitices,
sem destinos mórbidos.

uma paixão pura água,
uma paixão fervor latente
que repisa o peito, sem pisá-lo
num estouro de medos.

aquela paixão que lambe o olho
e toda opressão se faz distante.
uma paixão novo mundo,

onde dois se olham como somas puras,
sem subtrações, sem espaços de dúvida,
na certeza que dois são um
e tudo mais, paisagem.

(poema da paixão urgente)

rápida manhã, delírio louco:
saber-se que é mortal, posto que é chama.

17 junho, 2008 at 12:49 am 11 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – II

o texto é naufrágio e é silêncio.
quando da pedra salta-lhe uma cabra
seu dia contado vê-se rubro.
a pele vermelha do ar solta-se
em vigores. uma poesia carrega
sempre outra. cada grão avalia
o extrato como podre. querelas
são fontes de desejo. e os desejos,
noites.

preso dos olhos, manuel é cumieira.

17 junho, 2008 at 12:28 am 2 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – I

declaração de princípios (manuelzão)

1 – “as coisas boas sempre vêm na memória. mas a ruim tá encostada de lado”.

2 –“quando o jiló ficar doce
quando o açúcar amargar
quando deus deixar o mundo
eu deixo de te amar.”

3- “nunca vi encruzilhada pro inferno.”

4 – “tudo ele queria saber a finalidade.”

5 – “a sobra que sobrou.”

6 – “eu nunca achei nada pouco
ou muito que chegasse pra mim.”

7 – “ela tava mais no rumo
de entender o que eu queria.”

8 – “sangue cuaiou, acabou.”

9 – “uma santinha dessa posição.”

10 – “a brincadeira saiu e rendeu demais.”

11 – “o negócio é todo às avessa.”

12 – “servia para lascar um pau-de-lenha.”

13 – “teve vez da barriga não caber.”

14 – “só acredito no que vejo.”

15 – “medo? num sei o que é medo.”

16 – “cão chupando manga.”

17 – “promete esse mundo e a metade do outro.”

16 junho, 2008 at 12:10 am 6 comentários

reverso

o avesso é tão remédio como a noite
que busca luz num fundo de reveses.
outros seres, metástases do tempo
soluçam abrangentes, nossas vozes.

como se fossem anos, por mais luzes
que os avessos dos corpos se contorcem
rever o templo do homem, retaguarda
dos bichos que retorcem sua boca/

outro é viés de tudo, epicentro
do canto interno, pulso, um outro avesso
que retomado nos diz saber ser outro
se tanta luz lhe faz rever os dias.

16 junho, 2008 at 12:00 am 6 comentários

acróstico da poetinha

B orboletas
E
A belhas
T êm
R isos
I guais
Z zzzzzzzz

Beatriz Nassif

15 junho, 2008 at 6:30 pm 13 comentários

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