Archive for dezembro, 2008

matéria bruta

dizer te amo,
bruta matéria,
se a resposta tem dentes de desgaste.

se as vísceras do mar te alimentassem
sobrava-te a imensidão e pura dor
carregarias no colo, aedo adjacente
dos tonéis do riso. é puro o espaço
do teu corpo, somado e mal somado.

quando virás trazer a gota do teu olho?
que multidões te encalham o riso
e a luva? vestes o quê no ventre?

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28 dezembro, 2008 at 3:20 pm 7 comentários

(raso de delírio: o meu cão morto)

rio acima duas canções se fazem.
alargado meu peito desfalece.
que arcos hão de vir, sombriamente,
falar, cerrado puro, do meu lastro?

e se os risonhos da manhã me deceparem?
acaso sou poesia ou sou manhã?
acaso uma nascente é tão nascente
que só se faça romper pela clausura?

vou de saberes, que saberes estes
são uivos que caminho pelas águas
e águas são de um sólido mais brusco
que desfalecem os ranços já chegados.
cauda selvagem, se me sobra toda
a vida por parir mais que selvagem.

 
(raso de delírio: o meu cão morto)

23 dezembro, 2008 at 7:51 am 10 comentários

ouro preto, minha

ouro preto, minha

vou consultar

os remendos da pele da cidade.

vista sua alma, seu corpo,

já lhe sei das mazelas.

quando olhada,

seu fígado se mostra lavrado por tenazes

de homens insensíveis.

sequer sua moldura foi mantida.

cães, sem ofensa aos cães,

trataram-na como boi morto

a ser comido em voracidade.

pouco lhe sobrou dos caminhos.

cabe saber, se rôta,

sua pele não é descartável.

cabe saber, se quebrados,

seus órgãos mantêm vida

a ser recomposta.

e saber, ao final,

se as mãos escravas que a montaram

terão os olhos daqueles que a habitam.

(per augusto)

19 dezembro, 2008 at 7:11 pm 15 comentários

(lhes atropelo a alma)

se alma de montanhas, decrescer.
a avidez de ser noite fica pura
como puros ouvidos soam doces
se extirpado seu revés do tempo.

que almas velarão a tua voz?
que riscos cederão estes teus olhos?

de outro, se montanha, pura pedra,
chão, rasgo, lua, estado, capim podre,
armar-se de nuances agridoces
mais que ficar, dirá: arrefecer.

o nu do rosto, dente permanente
traz a vontade de manhã mais nua
que reverbera os caldos de uma boca.
a boca só, em si, atropelada,
carrega uma cidade como fosse
viver cada rua, cada nesga
de rua, cada poça d’alma

           (lhes atropelo a alma)

16 dezembro, 2008 at 4:07 pm 23 comentários

meu cavalo selvagem, meu morcego

1.

meu cavalo selvagem, meu morcego
rebuscam o sertão atávico.
quando aquilante da noite,
revivo a árvore sem escrúpulos de mim.
os corpos nutrem espaços. vertem ossos
que quebram meu estado breve.
de emoção vou refazer meus gonzos.

2.

quisera o aço de quirera, a quirera de aço
que ruboriza a face:
um poema que nutra a vida de carne.
seja breve meu estro. seja ralo e breve,
como breves e ralas as palavras avançam
sobre o corpo do povo.
o ar é puro manejo. não há vento
que esconda meu grito.
(per augusto)

14 dezembro, 2008 at 7:21 pm 16 comentários

(para affonso romano de sant’anna)

 

não acredite na suavidade dos poetas
cujos versos,
por simples,
são um cavalo em pêlo, no cerrado.

(fuja do poeta
como se foge da doença que se estampa longe.
seu fígado é visgo:
nada lhe corrói as entranhas.)

os aços mais duros
não conseguiram lhe desmontar as peças.
seu olhar, sempre sobre,
há que ser medido em trovões.

um poeta qualquer, por mais frágil,
faz terremotos parecerem grilos.

(a estranha essência do poeta)

9 dezembro, 2008 at 6:51 pm 24 comentários

pontes, ouro preto

as pontes que martelo e que atormento
carregam uma espécie de ungüento
que vila rica deixou em cada delas.

o sujo, o não calado, o renitente
perderam a vida, a mão, a língua, o dente
por discordar do que havia sobre elas.

quantos soberbos sobre as pontes disfarçaram
suas viagens de quem nasceu do ouro
e o ferro em apetite aguçaram.

tiveram, em pindorama, estes senhores
que carregar na consciência, se a tiveram,
o grito amargo das dores que causaram!

   (de quantas pontes vive ouro preto?)

6 dezembro, 2008 at 2:56 pm 21 comentários

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