Archive for 7 junho, 2008

dos habitantes internos

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustoso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo salvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e ai. Aviso tambem que nao se deve temer seu relinchar: A gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

Clarice Lispector

 

tenho certeza de que a clarice foi habitada por um cavalo selvagem.

minha imagem é de um cão perdido. nem mais, nem menos. nunca me vi capaz de conter anjos, sequer tortos. que me desculpe o drummond : sou “gauche” vital. sem comunicação.

há umas profundezas que namoro numa paixão incontida.

7 junho, 2008 at 6:48 pm Deixe um comentário

ouro preto, minha

vou consultar
os remendos da pele da cidade.
vista sua alma, seu corpo,
já lhe sei das mazelas.
quando olhada,
seu fígado se mostra lavrado por tenazes
de homens insensíveis.

sequer sua moldura foi mantida.
cães, sem ofensa aos cães,
trataram-na como boi morto
a ser comido em voracidade.
pouco lhe sobrou dos caminhos.

cabe saber, se rôta,
sua pele não é descartável.
cabe saber, se quebrados,
seus órgãos mantêm vida
a ser recomposta.

e saber, ao final,
se as mãos escravas que a montaram
terão os olhos daqueles que a habitam.

(per augusto)

7 junho, 2008 at 12:00 am 5 comentários


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