Archive for abril, 2010

Romério Rômulo e a sagração do sertanejo urbano

Poesia não é profissão nem ganha-pão. Se você encontrar na biografia de qualquer pessoa algo como “profissão: poeta”, pode ter certeza de que o cara é vagabundo ou louco. E não é poeta. Mas, se você encontrar o mesmo sujeito ao vivo, olhando para dentro, muito para dentro, pode estar diante de um poeta. E não estará diante de um vagabundo, já que poesia exige, além de experiência de vida e muita leitura, o famoso “ócio criativo”, que é quando o cara fica horas e horas pensando coisa nenhuma, ou pensando tudo, ou divagando, ou sonhando, ou quem sabe tudo isso ao mesmo tempo. Drummond se formou em Farmácia, mas ganhou a vida como funcionário público e jornalista. Muitos poetas foram jornalistas ou funcionários públicos (quando não as duas coisas), além de professores. Entre diplomacia e jornalismo, João Cabral escolheu diplomacia, porque “dava menos trabalho”, segundo ele mesmo. Destino também de Zuca Sardana e Chico Alvim, dois dos melhores poetas atuais. Joaquim Cardozo, da safra dos grandes pernambucanos, foi engenheiro. Já Romério, meu poeta de hoje, é professor, e ensina matéria que nada tem a ver com poesia: economia política. Será que combina? Se combina, não sei. Mas que dá para conciliar, é claro que dá, conforme tentarei demonstrar, de olho na poesia.

"Versos finais de "Per Augusto": "e tudo volta à terra/ como terra, sempre!"."

 

OS SERTÕES
Durante alguns anos, Romério reverenciou e tangenciou Guimarães Rosa e Manoel de Barros, sertanejo que é, nascido nos sertões de Felixlândia, no miolo de Minas. Outros tantos anos foi amigo de Manuelzão, dos mais importantes personagens de Rosa, que chegou a ser mais importante que o finado autor, da mesma maneira como Dom Quixote se tornou mais conhecido do que Cervantes, seu criador.

Com muito trabalho – já que ninguém nasce sertanejo impunemente -, conseguiu se livrar das influências e alçar voo próprio. Como teve parâmetros elevados, começou em nível bastante alto, não sendo nunca “bacurau de voo curto”. Seus últimos livros têm a força do poeta maduro, seguro e dono de seu instrumental. Vejamos uma prova, que já está em seu antepenúltimo livro, “Tempo Quando” (dois volumes, Dubolso, 1996).

“o avesso é tão remédio como a noite/ que busca luz num fundo de reveses./ outros seres, metástases do tempo/ soluçam abrangentes, nossas vozes.// como se fossem anos, por mais luzes/ que os avessos dos corpos se contorcem/ rever o tempo do homem, retaguarda/ dos bichos que retorcem sua boca.//outro é viés de tudo, epicentro/ do canto interno, pulso, um outro avesso/ que retomado nos diz saber ser outro/ se tanta luz lhe faz rever os dias”.
O tom não é muito diferente dos poemas de “Matéria Bruta” (Altana, 2006), embora a publicação dos livros esteja separada por dez anos de silêncio:

“a chuva que me habita não é chuva,/ é um quadrado oblongo de facetas./ a quina do meu lábio, cada fresta/ há de conter o rasgo destas almas.// as almas que te habitam são tão seres/ que possam mergulhar na tua alma?/ acaso, se carregas, tens um olho/ que sabe a múltipla face do meu rosto?// tentar pode ser mais. e se me levas/ te trago incorporada, último dia”.

Três constatações imediatas: o uso de minúsculas no início dos versos, qualquer que seja a pontuação anterior; o gosto pelo decassílabo, com um ritmo sinuoso e quase hipnótico; o jogo permanente de paradoxos, que transformam cada verso num cipoal linguístico difícil de penetrar, exceto através do ouvido (e do olho) refinado.

A MATURIDADE
Acompanhando a trajetória de Romério e relendo sua produção dos últimos livros em conjunto, pude perceber como sua evolução se deu. Não aos saltos, nem através de poemas isolados, mas por ilhas de iluminação poética salpicadas aqui e ali nos primeiros livros, como pontas de icebergs, cada vez mais presentes nos livros recentes, até chegar à primazia absoluta no referido “Matéria Bruta” e no posterior, “Per Augusto & Machina” (Altana, 2009), em que, desde o título, o autor homenageia um de nossos maiores e mais estranhos poetas de qualquer época: Augusto dos Anjos. Como em “uma bravura regenera a noite”:

“de quantas nuvens se faz uma loucura?/ é construída a mão que bate o prego?/ as estações do corpo só revelam/ o hábito eloquente do delírio./ que nos corroa a pedra, o visgo louco da agonia!/ desmonte do tamanho, o extirpado dente,/ gengiva em sangue são a mesma face/ do hábito terrível de ser homem.// quanta eloquência travada no meu olho!”.

De vez em quando, a beleza poética se deixa carregar de significado, como nos versos absolutamente admiráveis “do hábito terrível de ser homem” e “quanta eloquência travada no meu olho!”. Mas o gosto pelo paradoxo continua em outros, como em “de quantas nuvens se faz uma loucura?” e “o hábito eloquente do delírio”.

HERANÇA E MISTÉRIO
Em outros momentos, a reverência pela poesia de Augusto dos Anjos é pura e comovedora homenagem, pela apropriação mínima de, digamos assim, motes, como fica claramente explícito neste austero e vertiginoso poema sem título (como a maioria dos poemas de Romério, que ainda podem ser apenas numerados ou com os títulos entre parênteses, depois do último verso):

“para onde fores, pai, se for ainda/ a noite, o epitalâmio da doçura,/ terá aí meu prato de candura/ em vassalagem à tua dor vertente.// meu antro, de altivez tão indecente,/ dirá sou eu aquele que está solto./ o mar que me procelas tão revolto/ nem cabe a minha pele de alvuras”.
Diante dessa poesia de elaboração tão elevada e de riqueza desconcertante, a única atitude possível é a de reverência, sem comentários. No entanto, era preciso escrever alguma coisa sobre ela, mesmo que circularmente, mesmo que dando volta em torno dos versos, sem ir a lugar algum. E assim chego à conclusão (como tantos outros chegaram) de que a grande poesia é inapreensível, e sempre escorregadia, pois está sempre sugerindo o indizível, eternamente intraduzível em outras palavras.

Sebastião Nunes

Publicado em: 25/04/2010

http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdEdicao=1641&IdColunaEdicao=11478

25 abril, 2010 at 5:55 pm 8 comentários

“a genética da coisa”

(romério rómulo na germina literatura)

O Grito, Edvard Munch, 1893, Óleo e Pastel S/Cartão, 91×73,5 cm, Galeria Nacional de Oslo, Noruega

 

 (o grito)

por romério rômulo 
 
 O poema 

há um relato de voz naquela voz, 
tão retorcida voz, toda ela espanto. 
o corpo que é voz tem um esgar 
que deixa de ser corpo e é só voz. 
 
se munch se dissesse, rediria 
a voz candente, noite de gravura, 
que é gravura e voz que firma a tela. 
 
intensos tão meandros destes traços 
que num itálico do grito a fala sente 
o homem ser só grito, sem mais homem. 
 
(romério rômulo, “matéria bruta”, 2006) 

 Razão 
 

1. o desafio aceito: o caminho 
 
recebo, do josé aloise, o convite/convocação para escrever “a genética da coisa”. 
coisa que é o meu poema “o grito”, trabalhado sobre o munch. aceito. 
cabe buscar o quê dizer. não domino os aparatos críticos. o caminho será o relato 
do caminho de chegada ao poema. que forças me moveram. 
é mais um percorrer a mim mesmo, com as influências que me amarram. 
sempre estive mais para fazendeiro do ar. 
 
“sou fazendeiro do ar, 
do mar, índia, portugal, 
de natal, das trevas, minas. 
sou fazendeiro da noite, 
sou fazendeiro esquisito, 
mais pra feio que bonito, 
menos do bem que do mal. 
claros delírios, donzelas 
verdes azuis amarelas, 
nascentes do meu jardim. 
fazendeiro de fazendas, 
mistura de pano e rendas, 
de bois, jumentos e éguas. 
cada passo eu piso léguas 
da fazenda que há em mim.” 
 
(trato) 
 
(romério rômulo, “bené para flauta e murilo”, 1996)
 
 
 

2. o meu interesse agudo nas artes plásticas 
 
as artes plásticas sempre me tocaram de forma especial. isto só fez crescer a partir da minha 
convivência em tempo integral com o meu camarada, amigo, irmão, carlos scliar. o cotidiano 
tomado de telas, objetos, gravuras, desenhos, histórias, biografias, discussões, me movimentou  
forte neste caminho da arte. eu tive nele um mestre permanentemente disposto a contribuir, 
esclarecer, questionar. me fortaleci. 
daí o falar, na poesia, das artes plásticas e dos artistas, cresceu. sobre o scliar e o seu trabalho, 
me manifestei várias vezes. sintetizado: 
 
scliar, carlos 
 
“suspira objeto endiabrado, 
natureza desmontada. 
cada traço remonta. 
 
de muito, faz desassombros na tela.” 
 
(romério rômulo, “bené para flauta e murilo”, 1990)
 
 
uma breve palavra sobre o amigo desafiador.
 
 

3. picasso, o galo bélico 
 
nesta conversa, picasso é uma obrigação. vejo um galo desenhado por ele em 1938. 
agudo como todos os galos e mais agudo por ser de picasso. daí sai o 
“galo bélico, picasso, 38”. 
 
“agudo ângulo, reteso, o galo vinca 
a noite que desnuda no pescoço. 
um galo válido, picasso, 38, 
quadrimestria, no cubo, quintessência. 
fala reta, de galo, quase reto 
como se outro galo não possível. 
 
um galo amplo, falado como espera 
de outra tão manhã, picassiana.” 
 
(romério rômulo, “tempo quando”, 1996) 
 
afinal, o poema é plástico. vou dizer das artes e dos artistas através dele.
 
 

4. uma sequência obrigatória: “a tua noite é vesga, a tua ânsia é água” 
 
alguns gritos, de vária dimensão, aparecem. o ovo é a origem. 
 
”o ovo é um riso e afago da manhã. 
seu branco é texto da pele de um dente 
que quebrado traz podre, enxofre, galo. 
se um picasso sabe, ele o transforma ovo. 
 
picasso, cúbico, do ovo, mondrian 
fazido cores puras, geometria rouca 
de levar tapa de cérebro escarlate 
com tanta vida a defender de traços. 
 
se ovo fui, quieto arregacei 
umas manhãs-kandinsky, voluptuosas 
de cor. talvez uma quirera 
se benfazeja seja faça-se roault.” 
 
(romério rômulo, “matéria bruta”, 2006)
 
 

5. munch: a angústia desmonta 
 
no fundo impacto do expressionismo, munch delimita. não há como passar ileso 
por ele. a amargura do personagem/ser na ponte, o torcido do corpo e da boca, 
as linhas gerais da imagem, as cores que submetem o meu olho, levam a que eu me manifeste. 
o grito me caça. aquele ente vedado, puro grito e ânsia, é o que sobra em palavra. 
 
“intensos tão meandros destes traços 
que num itálico do grito a fala sente 
o homem ser só grito, sem mais homem.”
 
 

Romério Rômulo (Ouro Preto/MG). Nasceu em Felixlândia, MG. Professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar (Ouro Preto, MG). Prefaciou a primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, O Elixir do Pajé (Edições Du bolso, Sabará, MG, 1988), mais de 100 anos depois da edição original. Até então todas eram clandestinas. Publicou vários livros de poesia, entre eles Bené para Flauta e Murilo (1990), caixa Tempo Quando (4 livros em 2 volumes, 1996), Matéria Bruta (Editora Altana, São Paulo, SP, 2006) e per augusto & machina (Editora Altana, São Paulo, SP, 2009). romerioromulo@hotmail.com 

 

17 abril, 2010 at 3:36 pm 11 comentários

manuelzão e romério rómulo

“92, manuel morreu de sangue.
simplicidade foi-lhe o coração.
nascido outro, neste espaço bruto
que outro manuel coubesse manuelzão.

declaro, em fé, que manuelzão foi boi.”

 

11 abril, 2010 at 6:28 pm 17 comentários

caibo nas mãos

quando me lavo, estranho, desencontro
quase que todo o corpo apedrejado
são imunes as mãos, as ternas plantas.

me vejo atordoado, intensamente
caibo nas mãos de uma guerreira bela
de estranha intenção, pura tormenta

túrgidos os vidros que me cercam. noites
são frágeis e manhãs são prenhes
de desvario e morte permanente.

caibo nas mãos)

[Per Augusto& Machina]

6 abril, 2010 at 5:47 pm 15 comentários


Feeds

abril 2010
S T Q Q S S D
« mar   maio »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

RSS Fênix em Verso e Prosa

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.