Archive for junho, 2011

“quando eu morrer amanhã”

(por uma crônica de luis nassif)

quando eu morrer amanhã, não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como Van Gogh
e um afro-samba eterno de Vinícius

de Caravaggio eu largo essa madona
a recorrer dos rasgos e artifícios
de Scliar, a paisagem da intentona
de Baudelaire, as bendições e os vícios

ainda fica Zé Limeira no cordel
de Cabral deixo um galo e a madrugada
tecida nas texturas de um bordel
onde Bandeira descobriu-se em nada

de Augusto dos Anjos deixo a trilha
das dores retalhadas numa zona
de um soneto. deixo a luz que brilha
num gol fundamental de Maradona

se assim nos entendermos, volto ao jogo
e trago os meus cavalos e o meu guia
numa cidade escaldada em fogo
onde só queima o extrato da poesia.

quando eu morrer amanhã, deixe o meu vôo
que eu, de mim, jamais morro e perdôo.

romério rômulo

28 junho, 2011 at 4:40 am 7 comentários

os meus cavalos, fragmento

os meus cavalos são mesmo poetas.
camões rodeia mares pelos pastos
vinícius leva éguas nos arrastos
dos seus trovões, das suas romarias

drummond fica perdido nas orgias.
cabral é tão mais reto que me dói
olhá-lo a habitar geometrias.
meus olhos ficam secos e me roem.

um cavalo das nuvens, tião nunes
lavou meus versos, os deixou imunes.

zé limeira é um cavalo de cordel
augusto, anjo, mói o osso e bebe fel.

romério rômulo

26 junho, 2011 at 7:21 am 1 comentário

carta a Caravaggio, 4

quando a morte arranca veemente
pelo pulso das feras mais mundanas
quando os gados te comem aos pedaços
e te mostram o caminho sem final

sobra ser um amante calejado
de amores e estradas carcomidas
a perder o olhar nos corpos turvos
das mulheres vestidas sobre lodo

uma fera me diz do teu outono
dos teus caldos e guizos imorais
das serpentes atadas numas luzes
dos teus ritos montados sobre farsas

estes mundos são todos uns punhais
de romper e lavar toda essa carne
surgida do pincel na tela impura
sobre as veias das putas aparentes

onde densa e cruel poesia sobra
numa dura e cruel poesia escassa
de cuidados com o tempo permanente.

a indigência da vida é o novelo.

romério rômulo

25 junho, 2011 at 3:53 am 2 comentários

absint, caravaggio, maradona, 1

a todos que me dizem ser demente
meu olhar caravaggio maradona:
me desfiz em sermões à beladona
sou secreto, estranho, inclemente

pra dizer a verdade, sempre minto
minha trupe bebe sangue de vestal
sou nas tardes febris do absinto
vil, secreto, estranho, animal.

romério rômulo

22 junho, 2011 at 3:26 am 4 comentários

as coisas de Caravaggio, 3

há coisas como o dia, como a noite
como as maçãs dormidas no seu prato.
há coisas pelos anjos, que intranquilos
revelam um macabro sobre tudo.
há coisas que são poucas e devassas
há coisas muitas, pedras, feitas breves
numa sangria de cuidado e morte.
que coisas arrebatam e nos queimam
de pura dor e sofridão intensa?
as coisas reveladas são mais duras
que a irrevelada ação que as sustenta?

há coisas tão medonhas enterradas
e outras só encanto nos seus vôos
que ávido de tudo me carrego
neste mar de sangrias infundadas.
umas coisas me dizem que sou bruto
tantas outras me regem que sou sábio
e dilaceram meu ânimo de bicho
ou corrompem um ombro puro osso.

todo corpo regado de martelos
que são coisas de ferro desterrado
só me traz um mormaço de peleja
pelas velas que pisam sobre mim.

quanta coisa me faz ser anjo podre
ou demônio marcado de ciências?

neste prato de coisas caravaggio
a vida é um pecado sem final.

romério rômulo

19 junho, 2011 at 3:07 am 1 comentário

caravaggio, 2

carrego uma luz já decadente
onde meu lixo é pura dor montada
no cão que me ocupa de repente
e me convence morder a madrugada

o dente desse bicho vê somente
meu corpo, multidão embriagada
sou sua voz, o osso, uma semente
a destratar estorvos da estrada.

romério rômulo

14 junho, 2011 at 1:21 pm 3 comentários

caravaggio, 1

eu vivo em minha pele duramente
meu complemento da carne indevida
a minha pele, estrume de aguardente
é uma pele morta, já vencida.

o meu suor é um extrato de serpente
rasgado pela noite mal dormida
a minha paz se foi, entardecida
e eu fiquei aqui, tardiamente

quando eu me lavo no pó incandescido
quando as vestais me sabem por instinto
quando os mortais me rompem o bebido

onde eu me lavo no pó do indistinto
onde os mortais me esperam, se vencido
onde as vestais me cobram o absinto.

romério rômulo

12 junho, 2011 at 4:19 am 1 comentário

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