Archive for julho, 2010

” vejam bem ” ( para zeca afonso )

” vejam bem ” ( para zeca afonso )

é difícil o caminho do corpo,
mais estranho é o caminho do pão.
são estradas, vieses malditos
repisados e feitos à mão.

as estradas do corpo, aventura,
velhas carnes postadas no chão
são estradas ardidas, agrura,
entranhadas no teu coração.

quando o vale da noite ensurdece,
acontece na vida um desvão,
todo o pão se resvala na noite
que te sobra na palma da mão.

romério rômulo, julho/2010

29 julho, 2010 at 6:59 am 9 comentários

“o vermelho de van gogh”

 

teu amarelo, van gogh, é o espelho
do que corrói o peito em ânsia pura.
teu amarelo, van gogh, é meu vermelho
purpura o sangue e ainda me purpura.

teu amarelo, na noite, está esguelho
solto de corvos estrelados, noite.
teu amarelo, van gogh, é meu vermelho
purpura o sangue e a minha carne. foi-te

da agonia o antro. com um tiro
de amarelo e trigo em tua carcaça
por meu vermelho me resvalo e miro
o peito torto, feito de desgraça.

25 julho, 2010 at 1:53 pm 7 comentários

“o ato continua”

 

no primeiro dia
sangrei.
umas telhas me atravessaram,
arrancaram meus olhos
e me trouxeram solidão.
quantas casas habitam meus ossos?
quantas candeias armadas vão levantar minha essência?
quantas estradas vazias pousam sobre minhas estradas?

mesmo os cães me trucidaram.

o olho no céu me rompia em chuva.
deitei com umas verdades sombrias na pele.

no segundo dia,
desarmado,
vi as rupturas da intempérie,
uns cupins a pisar tormentas,
meu olho calmo com a luz do mundo.

como sangram os homens!

em dois dias me renovo
e a guerra travada nem é tão intensa.
as palavras me batem em tiros de canhão
e as reconheço palavras.

o ato continua.
sou outro.

17 julho, 2010 at 6:14 pm 7 comentários

“quando um cavalo chega e traz retalhos”

 uma mulher que ama algum cavalo
só pode ser musa cruel.
os lábios que eternizam o seu amor
são as retinas duplas do animal.

quando o cavalo chega e traz retalhos
de úmidos capins e de seus pelos
essa mulher, loucura entre os cabelos,
alarga tudo e deixa-se em metal

candente e secular. a agonia
do seu corpo eriçado de tormentas
se fará toda numa cor magenta
e sangra um sangue de suor e sal.

12 julho, 2010 at 12:18 pm 3 comentários

(me caber em cada)

 o poema, moça bela, é um entulho
que peço me caber em cada canto
do corpo, essa estrada, meu espanto,
meu quebranto de escuros, meu engulho.

o poema, moça bela, é um reboco,
uma tela que cobre a tarde nua.
cada poema que piso é uma rua,
imensidão de mãos, como num soco.

5 julho, 2010 at 6:47 pm 6 comentários


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