Archive for janeiro, 2009

rasos, 2

1.
é-lhe, desmedido.como que o cru
dos cantos. em ponta, sumidouros. suor lhe
faz a testa. um raio cerca margens. as
costas, um objeto do mundo. sempre em
caminho. trilhos lhes sobre. o rubi
do olho ferve. rútilo. sempres é um tempo
forjado. cada, no olho, tempo. mais que
por sobre, saber.
vido no riso da luz.

2.
caçava manhã como fôra outra. inda des-
vanecia tempos. um trôpego de borboleta
farfala. cisco de vento. regaço de dente faz
riso. uma alma leve no candorado da noite.

3.
tinha aspas na vida e no tempo. um
dobro lhe falava.

4.
menina marta não recasa. colo segura,
passarinho solta. ontem que revive
é halo de fruta. outros mais que ontem.
sabidências.

5.
perfil dalata. corre a manga.

6.
som de caminho reto.

31 janeiro, 2009 at 12:41 am 19 comentários

rasos, 1

1.
éramos de dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos de
mundo, tudo. alargado coração em corpo.
similares das margens.

2.
trago margens de rios. peixes me lambem.
como visgo, vejo coração. cabelo de
retardo. a caminhada é sol que rumino.
a solidão pronta, jaça sem jaça.

3.

ontem, o través me trouxe. deixou-me
mudo, como que sangue. fiz-me em folha.

4.
anteontens quiseram mais. restaram
corpos em sobre. assins fazem.

30 janeiro, 2009 at 5:36 am 13 comentários

todo sertão é um caldo de tortura

o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.

26 janeiro, 2009 at 2:06 pm 29 comentários

para renata

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã,fel em mim,
entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.

22 janeiro, 2009 at 1:40 pm 31 comentários

tião, por romério

1. o mau humor do tião nunes é pra lá de engraçado. um dia, numa declaração súbita a mim, disse: ”você é uma das poucas pessoas com quem eu gosto de conversar”.  enchi o peito de satisfação e ele prosseguiu: ”mas com meia hora de conversa sua eu já estou satisfeito”.

é possivel?

2. me parece que a maior diversão dele é falar mal do machado de assis. só pra me criar problemas com os amigos partidários do “bruxo do cosme velho”.

3. outra vez pergunto: ”tião, por quê você não aparece mais vezes em ouro preto? a zelinha vem sempre de carro. é só você vir com ela.” ele: ”eu detesto pegar carona”. e a zelinha é a mulher dele.

4. ele me incentivou a escrever um livro de literatura infantil. escrevi e mandei pra ele, pra publicar na nossa “dubolsinho”. ele nem comentou a respeito. um dia eu perguntei quando o meu livro seria lançado. resposta do tião: ”eu não vou publicar esse livro. eu não sei se ele vai vender.”

5. meu amigo me dá trabalho. há poucos dias me reclamou que eu não tinha sido duro o suficiente com ele numas decisões da editora. eu expliquei que nas conversas ele estava muito seguro das posições que defendia e eu tinha deixado. resposta: ”eu nunca estou seguro. se eu parecer seguro, eu não estou seguro, estou só entusiasmado.” agora, a cada 2 dias, eu passo um e-mail pra saber se ele está administrando bem a editora

19 janeiro, 2009 at 11:51 am 14 comentários

(mau) humor e poesia

quero destacar a matéria de “o globo” de hoje sobre o escritor, ex-poeta e dono da estética da provocaçao, sebastião nunes. no caderno prosa & verso.

Do Prosa & Verso, do Globo

Verve iconoclasta

Três lançamentos jogam luz sobre a obra do mineiro Sebastião Nunes, que, aos 70 anos, é cultuado por críticos e escritores

Ele talvez seja o melhor escritor brasileiro do qual você nunca ouviu falar. O mineiro Sebastião Nunes comemorou no mês passado 70 anos de vida e 40 de uma carreira literária da qual poucos tomaram conhecimento, mas que lhe rendeu admiradores como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes e Antonio Candido.

Os três estão entre os leitores fiéis que ao longo dos anos remeteram cheques à casa do autor, em Sabará, para subvencionar as tiragens de poucas centenas de exemplares em que Nunes publicou a maioria das suas obras, combinações inclassificáveis (”já fui acusado até de concretista e de pornográfico”, ironiza) de texto e imagem vendidas pelo correio e editadas em formatos incomuns (uma delas vinha acomodada num pequeno caixão).

Com esses meios modestos de divulgação, ele construiu sua reputação dentro de um círculo reduzido de leitores, do qual fazem parte críticos como Silviano Santiago e Flora Süssekind, e escritores como Sérgio Sant’Anna e Joca Reiners Terron.

Desde a estreia em 1968 com “Última carta da América”, o gosto pela sátira e o tom cáustico lhe valeram também alguns contratempos, com leitores talvez menos esclarecidos, como o governo de Minas Gerais (que recolheu um jornal estatal onde circulava o poema “As rampas do palácio”, reproduzido na página 2). Donos de gráficas se recusaram a publicar um de seus poemas por causa de palavrões.

Três lançamentos recentes permitem que a obra de Sebastião Nunes seja conhecida além do meio em que hoje circula. A editora paulista Altana reeditou no mês passado dois livros dele, “Decálogo da classe média” e “Somos todos assassinos”.

Já a UFMG acaba de mandar para as livrarias “Sebastião Nunes”, de Fabrício Marques, autor de uma tese de doutorado sobre Nunes defendida na UFMG. O livro reúne um estudo crítico, correspondência, entrevistas, um inédito e uma pequena antologia.

19 janeiro, 2009 at 11:48 am 2 comentários

uma bravura regenera a noite

de quantas nuvens se faz uma loucura?
é construída a mão que bate o prego?
as estações do corpo só revelam
o hábito eloqüente do delírio.
que nos corroa a pedra, o visgo louco
da agonia!
desmonte do tamanho, o extirpado dente,
gengiva em sangue são a mesma face
do hábito terrível de ser homem.
quanta eloqüência travada no meu olho!

13 janeiro, 2009 at 11:07 am 34 comentários

tua voz desvenda a noite

1.
teu rio é cauda lenta, só remanso
de halos remontados pelas tardes.
são outros que nos trazem suas luzes
de ventres renascidos, outros ventres.

cálidos olhos, teus, mais que solenes
virão depois dizer, se repetidos.

2.
são rios que te fazem renascer
moradas do teu corpo, ausência muda,
se cálida me chega a tua noite.

tua voz de tão solene me carrega
de tanta e tão travada reticência
se solta, me sentir, noite e amanhã.

12 janeiro, 2009 at 7:23 am 18 comentários

cândidos, um sopro

meu corpo traz uma equação de nuvem.
pobres resgatados, desmorados, osso e braço
rezam no ar de penitência suas águas.
proprietários do sobrado, pouco lhes resta.
de tempo, arreganham dentes de uma fome sólida.
ralos de feijão, seus corpos sabem o horizonte da terra.
escaldados, cândidos, um sopro.

11 janeiro, 2009 at 7:15 am 15 comentários

arrancar da tua nuca

eu tenho que arrancar da tua nuca
a vaga decisão de ser meu corpo
o elo de teu ventre com a terra.
devo extirpar o gesto adquirido
num, por somenos, ato reticente
de ver distância de mim ser teu intento.
quando as valas mostrarem nosso rumo
quando as formigas resvalarem atos
de um só ser em nós se validar
vou te mostrar a minha mão candente
meu corpo todo ele enluarado
e o meu dente podre de manhã.
há de sobrar de nós-o quê? –só torpes
rasgos de vento no olho do tufão.
a pura pedra me diz: quando fui homem?

10 janeiro, 2009 at 11:18 am 11 comentários

se de amor

se de amor eu canto o meu, somente,
na podridão da terra, entre brados tamanhos,
os tempos que perdi foram antanhos
e cabem no meu corpo já fervente.
brados passaram, em dores e mortalhas,
pisos vadios, estados diferentes.
eu peço, amor, do teu amor migalhas
que possam abismar todas as gentes.
vilão, daqui, em campo de batalhas,
só me atormenta a espada do vilão
que sem saber me cobre. indiferentes
do que me dói, os corpos destas terras
nem sabem o que dão e se me dão
alguma luz pra me tirar das trevas.

8 janeiro, 2009 at 3:56 pm 18 comentários

reverso

o avesso é tão remédio como a noite
que busca luz num fundo de reveses.
outros seres, metástases do tempo
soluçam abrangentes, nossas vozes.

como se fossem anos, por mais luzes
que os avessos dos corpos se contorcem
rever o templo do homem, retaguarda
dos bichos que retorcem sua boca/

outro é viés de tudo, epicentro
do canto interno, pulso, um outro avesso
que retomado nos diz saber ser outro
se tanta luz lhe faz rever os dias.

 

2 janeiro, 2009 at 7:04 pm 11 comentários


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