Archive for agosto, 2010

“fragmento”

 

escrever poemas aos entulhos
no revérbero de estradas e atropelos
pisar os corpos como fossem gelos
e as estradas como fossem muros.

a vida, amigo, é poço mais e mais
e os homens que se mostram em desmazelos
são todos eles uns caudais de pelos
que atravessam as noites de punhais.

(romério rômulo)

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29 agosto, 2010 at 5:39 pm 7 comentários

Romério Rômulo: uma poética implacável

Por Maria da Conceição Paranhos
PER AUGUSTO & MACHINA 
Autor: Romério Rômulo
Editora: Altana, São Paulo, SP

“Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. Com a coragem dos que querem aquela lucidez, não trapaceia com a realidade. O esforço é para fazê-la emergir com uma contundência de aríete, augusto e máquina. Eis os pólos do confronto e a procura deste livro surpreendente em sua dicção poética. Um corpo que sofre e uma alma que sonha um sonho em que nada permanece passivo – o que equivale a dizer sem interpretação e concreção em linguagem, território das transmutações. Como se o inconsciente se insurgisse e, chegando à flor da consciência, tentasse exibir “a matéria de que são feitos os sonhos” (Shakespeare). Desde o título, Per Augusto & Máquina, aliás, per augusto & machina (Editora Altana: São Paulo, 2009), o poeta des-capitaliza os vocábulos, quer rendê-los, observá-los e indagá-los sem mistificação, des-convencionando o arbitrário da língua. Por augusto e sua máquina, em favor de uma realidade mais real, em favor do homem-augusto, que assim grafado, adjetivado, nos remete a um ser humano restaurado à sua dignidade.A perquirição se processa incessante em favor de um nexo para a existência do augusto, portanto, pela sua máquina, sob a égide da poética de Augusto dos Anjos, poeta com quem dialoga desde o início do livro que é este. Este é o homem que se salva do tempo pela máquina, sua machine à emouvoir. Se em Le Corbusier, o corpo do homem é uma máquina com os olhos voltados para a perfeição, essa máquina de Romério, sendo corpo, é corpo de poesia.

  

No elenco de sua imagística, surge um bestiário que quer definir a consistência do existir, do sofrer, do amar, do pensar enfim – já que o pensar, ao ser desafiado pelo verbo poético, se mostra denso e agressivo, em processo contínuo de indagação. O cão e o cavalo. Vida e arte, homem e máquina. 

Nos recortes do seu percurso pela vida e pelo fazer poético, a ação poética se volta para o deciframento do que nunca se dá sem penas, à busca de um espaço em que se instaure uma realidade, purgada e depurada, em permanente processo: quando os cabedais que te revelam / somem na noite / cabe decifrar tua existência. 

Temas recorrentes como a loucura, a corruptibilidade do corpo físico, a solidão, a morte buscam sua existência na linguagem, onde ganharão consistência e força de ataque, homem e cavalo. O poeta não se permite veleidades: avalio-te o termo, poeta! / se tua minguante for vadia / faço do teu corpo piso da semente. 

Uma aguda consciência do tempo percorre todo o livro. A despeito do inevitável, do precário, da morte, enfim, não há recuo. Ao contrário, a palavra poética se arremessa contra as paredes do tempo conferindo-lhe o sentido de que carece. O nonsense é escavado e restaurado em agudo confronto com cada aresta do viver. Tudo, então, é denso. Não de uma densidade turva, bem pelo contrário, na perseguição de uma compacidade em que a experiência do existir se mostre em plena luz.  

Como em Cabral, o que não é transportado para a realidade que está a construir no poema, resulta em deterioração, podridão, olvido. A atenção é extrema, a vigília, permanente. Sem essa agudeza de percepção e essa determinação da procura a realidade desmorona em pó, em nada. 

Como em Drummond, seu coração é menor que o mundo, mas é muito maior, e explode em intensidade e amor pelo que no homem é digno: meu coração cubano, negro, índio, belga, / espanhol, derrame permanente / fez da pólvora, doce, carregada / cascos rasgando a terra sucumbida. 

Como em Pessoa, em que… o coração é um almirante louco / que abandonou a profissão do mar – num movimento metafórico em que a memória do já vivido se amplia sob a visão crítica, Romério Rômulo, num movimento sinedóquico, declara: o meu cabelo é louco, cimentado / por cabedais em tudo transparentes, permitindo à memória vir à tona justamente pela constrição de imagens na qual o poeta adestra sua percepção. 

Como em Augusto dos Anjos, ao penetrar a vida fenomênica das formas, identifica-se com as substâncias primordiais, que transitam do reino vegetal para o animal, deste para o homem-animal e animal-que-sonha, depois dos rituais de transformação. A partir da monera, chega aos seres mais complexos, por força das sucessivas mutações da matéria. Encontra-se, enfim, já diferenciado na mônada, sempre a evoluir em movimentos rotatórios, até adquirir a forma humana. Não há área da vida que não seja adentrada no seu mais profundo: a cada instante a morte, aqui eu vejo / augusto e anjo me revelo e cito / o escarro é a morte final de qualquer beijo. 

Trata-se de um a estratégia leibniziana. Em nível do pensar, como em Leibniz, para realizar seu intento começa com o objeto mais simples até chegar, gradativamente, ao mais complexo. Assim, a estratégia de observação consiste em partir da ideia de mônada e atingir a ideia não de deus (Leibniz), mas do existir do homem na terra. 

Nada é desprezível no desenvolver-se desse trajeto. Mínimas que sejam, as coisas ganham consistência apenas ao serem enunciadas. (v. “tamanhos pequenos”). Cada gesto se torna inexorável; cada palavra, implacável. O esforço é para deter a inexorabilidade do tempo e sua tragédia, sua história, tecida entre nuvens e terra, entre sonho e realidade, num movimento que intercambia tais realidades e as faz coexistirem em situação de questionamento. Se a memória é amarga, ela sustenta a trama do existir no fulcro de uma vida que se quer íntegra. Para isso o Hades é atravessado com determinação e sem espanto, numa postura heroica e augusta (…) como deve ser a dos poetas, heróis do tempo.” 

*** 

Maria da Conceição Paranhos (Salvador/BA). Publica, pela primeira vez, em periódicos de Salvador, aos dezesseis anos. Em 1969, conquistou o Prêmio Arthur de Salles, com seu primeiro livro de poesia, Chão Circular, com prefácio de Adonias Filho, publicado em l970. Formada em Letras, cursou o Bacharelado na Faculdade Santa Úrsula da PUC do Rio de Janeiro, e a Licenciatura, pela Universidade Federal da Bahia. Professora Adjunta do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, onde já lecionou as seguintes disciplinas: Língua Portuguesa, Teoria da Comunicação, Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada. Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia. Ph.D. pela Universidade da Califórnia, Berkeley. EUA. Responsável pela criação da Divisão de Produção Literária do Departamento de Literatura da Fundação Cultural do Estado da Bahia, quando realizou várias oficinas de criação e de crítica literária. Ficcionista premiada nacionalmente, no gênero conto. Dramaturga, tradutora, tem a maior parte de sua obra inédita em poesia, embora esteja presente em inúmeros livros, antologias, revistas e periódicos. Autora, dentro outros, de As Esporas do Tempo (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/COPENE, 1996), Prêmio COPENE de Cultura e Arte. E-mail: Paranhos_44@hotmail.com

  Licença Creative Commons

 

Fonte: http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=4693 

17 agosto, 2010 at 12:17 pm 1 comentário

“eu que já fui cavalo e cavaleiro”

 

eu que já fui cavalo e cavaleiro
rangi os trapos num cerrado chucro,
pavoneei às feras meus intentos,
sofri imensidões como se gotas.

cavalo e cavaleiro que já fui
por anos repisados de novilhos
brandi os versos como fossem trilhos
de intensa solidão. agora rui

o meu intento de quixote e sancho
ter uma dulce, marília, o que me leva
a ser cavalo, cavaleiro e treva
pelos adros das ilhas que não sei.

eu que já fui cavalo e cavaleiro
de tronos abissais em que entorpeço
arranco os estilhaços de um berreiro
e me destravo, nu, no meu avesso.

cavalo e cavaleiro fui.
cavalo, cavaleiro e rei.

romério rômulo

6 agosto, 2010 at 8:55 am 7 comentários


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