campos, geraes

armadas ancestrais me percussionam
no tapa que alcancei na madrugada
ser leve, solto, rítmo de estrada
é a sobra das palavras que ambicionam

estar no verso em estado de boiada.

1 comment 10 Julho, 2009

1.
vou travar
a rugosidade da poesia,
a cerebralidade do texto.

vou lamber
o alvo escarlate da redoma
a sobra do espaço anunciado.

2.
quando a vida
em detrimento de mim
comentar as escusas

vou retomar
a rugosidade da poesia
a equação anunciada do verbo
a cerebralidade do texto.

2 comments 6 Julho, 2009

“meu coração tem halo de cavalos”

carranca de cerrado é que mais noite,
turva noite, noite travada de fantasma.

ser fantasma é como adjacências.

4 comments 2 Julho, 2009

per augusto

meu coração tem vale de equações
com um ananás que se lhe encerra o peito.
u’a serra estridente lhe remonta
de paixões o séqüito de entranhas.
de as estradas serem o ninho breve
sobra o esgoto da linha do horizonte.

a cumiada do olho, brusco traço
da vida, pisa língua e estrato, o corpo.

uma beleza, esta que me caminha.

5 comments 30 Junho, 2009

a tua noite é vesga, a tua ânsia é água

o ovo é um riso e afago da manhã.
seu branco é texto da pele de um dente
que quebrado traz podre, enxofre, galo.
se um picasso sabe, ele o transforma ovo.

picasso, cúbico, do ovo, mondrian
fazido cores puras, geometria rouca
de levar tapa de cérebro escarlate
com tanta vida a defender de traços.

se ovo fui, quieto arregacei
umas manhãs-kandinsky, voluptuosas
de cor. talvez uma quirera
se benfazeja seja faça-se rouault.

6 comments 29 Junho, 2009

vou entregar as palmas do meu corpo.
em procissão, devo dizer, a alma úmida
será, se pode ser, tal qual remanso.
o trêmulo da noite e lábio vai dizer
vontade de anjo revela-me demônio.

vou navegar o último de luz.
minha cegueira impune se fará,
sem mais saber, um caso resvalado.
uma mulher em corpo: os dias
outros. nem todos saberemos.

4 comments 27 Junho, 2009

e tal beleza flui teu corpo cru
que nego-me a revê-la de manhã.
a tua assaz tamanha reticência
é um valor de ossos, todo então.

cabe dizer-te cada coisa nua
que a amplidão da fala me apavora.
se te contemplo, dizes-me mistério
se te revelo, nada me revela.

tanta beleza soa falsa e dela
arranco meu tropeço, minha noite.
a goela se apavora, a nua cara
de visgo, teu passo de cadela.

9 comments 24 Junho, 2009

levantar poço e água

buscar os bois do meu campo, uivo, latido,
guardar os animais da memória,
latir uma cavalo potro ressequido,
levantar a água esguia do poço,
saber uns baldes de tanto cansaço.

tudo é ausência de cerrado.

avós de diamantes, tesouros monásticos,
assembléias de escravos, podem ser razão
de minha ausência.

uns valos de bois, umas manias de cavalo
chucro,
um atar de cachorro louco.

luzes e bois, fundidos, se rebatem.

10 comments 21 Junho, 2009

abertura, 1 *

1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!

2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.

3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.

4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!

5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!

6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.

 

*Inédito – do livro “Per Augusto & Machina”, a ser lançado brevemente

20 comments 18 Junho, 2009

só o tempo desliza

sou fátuo, de passagem, companheiro,
com doce riso a assobiar maçãs.
corpo assombrado de imagens, umas bielas
tardias que se fazem soltas.

se o corpo é redemunho, o que me assola a alma?
se o corpo é um dentro, o que trará?

posso regar a noite de auroras.

16 comments 25 Maio, 2009

verbo em alavanca

chuva fala do olho.
ciscos, tamancos da alma, dizem
ser o mundo meu estado e manhã.

sobrava-me, no olho, o vesgo do teu hálito.

quando cismas, explode o mundo e o verbo
em alavancas.

6 comments 22 Maio, 2009

bagagem

trago
uma secura no meu lado direito
que me proíbe de vender bananas.
trago
um martelo, tonel de badalos
que me safira e empresa os olhos.

quando milhos, tenho tantos
que me encarrego do tombo.

a sutil faca me faz anacoreta.

7 comments 20 Maio, 2009

as putas

as putas surgem na manhã, encruzilhadas
de corpo e ato, verdade que refreia
o noturno das almas.
cada corpo e olho trazem demandas
impulsionadas nas veias.
muitas extirpam a dor. outras, dor
já amada, fazem daquilo seu tempo.
e a mulher é lava adolescente.
se vista à necessária distância
seu pulso vive como antro de larva
em repulsa da mão que lhe percorre.

dilaceradas, lhes sobra um mundo vesgo.

14 comments 17 Maio, 2009

(intima, sua luz refrega substância.)

as putas ferem a noite com um olhar de luz.
vermelhos, sabem quando a cama resvalada
pode ser vista dos ângulos.
sabem-se frutas tão nascidas quando
ressecadas
e a prenhez de suas valas cabem, de mãos,
toda a terra.
o homem furtivo lhes deriva a noite
como canto. quando o estalar da terra
fala, um novelo contém o corpo.
há que tocar o novelo, feri-lo e resguardar
seus montes.

6 comments 15 Maio, 2009

o objeto de mim

teu encanto é de pedra.
teu olho, a paridade do ovo.
teu caminho, o lastro do espaço.

se vieres, direi do teu instante,
pisarei teu reflexo como estado do corpo,
transporei a vila como são transpostos
as peles e os bichos.
e de ti, estado, farei o objeto de mim.

qualquer cão passado saberá deste ato.

8 comments 13 Maio, 2009

louco, cimentado *

o meu cabelo é louco, cimentado
por cabedais em tudo transparentes.
carrego umas vogais de acessório
pra desditar poemas de indulgência.

o beijo, amigo, é a véspera da fome
que nos percorre: josés, joões, sem nome
sem consoantes uns, consonantados
outros. bêbados, invertebrados

da sanha do mundo. ruidosos calos
nas mãos de enxadas e assobios
suas visões são uns caudais de rios
que regam o mundo todo de abalos.

numa aparência louçã, insandecida
vou rebelar a noite de vestais
nuns sobremodos de maus modos tais
que até a morte vai se ver na vida!
 

* Do livro Per Augusto & Machina, a ser lançado brevemente

29 comments 7 Maio, 2009

ROMÉRIO RÔMULO: o cantador de mistérios em Vila Rica

 

Entrevista a Hercília Hernantes, do Novidades e Velharias

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios

Estes são os versos iniciais do poema Para Renata do poeta mineiro Romério Rômulo.

O artista e educador Romério Rômulo é natural de Felixlândia-MG e reside na histórica cidade de Ouro Preto-MG, onde atua como professor de Economia Política na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

A sua trajetória literária comporta várias publicações em livro, destacando-se as obras: Só pedras no caminho pedras pedras só pedras nada mais (Lemi, BH, 1979); Anjo Tardio (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983); Bené para Flauta e Murilo (Edições Dubolso, Sabará, 1990) e Tempo Quando (Dubolso, 1996). Também consta em sua trajetória literária o Prefácio da primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, “O Elixir do Pajé” (Dubolso, 1988) e a sua efetiva colaboração na fundação do Instituto Cultural Carlos Scliar.

Na web, o poeta difunde as suas linhas poéticas no blog Romério Rômulo e, atualmente, dedica-se ao lançamento do livro Per Augusto & Machina, que será publicado, ainda neste semestre de 2009, pela editora Altana.

A poesia de Romério Rômulo trafega o universo dos sonhos e da materialidade, daquilo que é, simultaneamente, imaterial e palpável na palavra, na arte e existência humana. Através de inquietações, reflexões profundas e buscas por sentidos, o poeta voa os labirintos do devaneio poético e da universalidade, onde delineia o próprio reconhecimento e, concomitantemente, a sua identidade histórica.

Em entrevista concedida ao Novidades & Velharias[1], Romério Rômulo expõe as suas concepções acerca de homem comum e poeta, explicitando quando e como lhe ocorreu a descoberta da poesia e a consciência artística, atestando que no princípio da carreira sentia-se um poeta maldito, um Baudelaire, algo assim. Esclarece, também, os motivos que perpassam suas linhas poéticas, as influências culturais e literárias da antiga Vila Rica, onde acena que por vezes se considera um personagem do século 18, e que não há em sua poesia rupturas claras com o passado, o que leva-o a beber nas águas dos poetas da Inconfidência.

Acerca dos mistérios intrínsecos à poesia, à atividade do poeta e a relevância da experiência poética para a existência humana, Romério Rômulo elucida que os mistérios são as não-respostas, os avessos e até os direitos não compreendidos e que compartilhar os mistérios da vida não é a única razão da poesia, mas é, certamente, uma delas.

Além de questões conceituais e a trajetória criadora do artista, o poeta mineiro reflete alguns elementos imbricados em poemas como Para Renata, Uma bravura regenera a noite, Cândidos, um sopro; e, apresenta as linhas gerais de seu novo trabalho poético: Per Augusto & Machina. Sobre o seu novo livro, o poeta elucida as relações entre nuvens e materialidade corpórea, onde acena que o mundo transita entre o fluido e o palpável. (mais…)

19 comments 27 Abril, 2009

álvaros amplos de dizer

a noite azeda comandava flores.

subalterno do tempo, outros vindos,
sabiam da poesia ser chuva.
gritos, moedas, álvaros, tão amplos
de dizer.

quanto de encanto cabe cada olho?
corpo é viés, planta rebatida
por sono avaro. outrora vi rompantes
ciganos serem homens.
se vindos, mais couberam em asas.
anjos todos, em ritmo fatal.

88 comments 30 Março, 2009

a paixão do poeta

1.
posso envernizar minha paixão.
posso dar-lhe uma nesga de brilho,
poli-la como aos sapatos burgueses,
os tecidos que encantam os salões,
as lantejoulas que efervescem a noite.
posso mesmo escavá-la como se faz com o furúnculo,
e, adentrado o seu pus,
arrebentá-la nas encostas de mim.
posso derivá-la em vida, cachoeira viva
que nunca será rio.

posso, então, o quê!

nada. nada posso
que não seja a sua própria carne,
seus espamos,
sua efusiva e momentânea fúria.

de tudo
o risco na pedra
vai dizer.
e só.

2.
a fúria, a tortura, os desejos
são caldos que engrossam a noite.
tensos, passamos pó sobre as feridas,
lambemos nossas almas de pedra,
reviramos cada estalo, cada medo.

os ruídos adentram nossa veia
como fogo da morte.
nada nos diz o silêncio. sobre nós
as formigas ressaltam seus desejos.

a chuva perdida sobre as portas
entrava as dobradiças, enferruja os homens.
a veia de minas, o chão de minas
nos confunde.

resta buscar o que sobrou do amor.

29 comments 26 Março, 2009

pura pedra

meu poema seco,
rastro de sol e cerrado,
carrega uma moldura de ferro.
montanha e água,
meu poema seco
traça uns caminhos de rio.

os cavalos do poema
são trevas da poeira vivida,
do esgarçado dos dentes
em iscas do outro lado.

a manhã que encobre tudo
lambe, azeda, meu corpo de tormenta.

28 comments 24 Março, 2009

ventania

patrícia tem a voz enovelada
baixa, baixo profundo, adjacente.

patrícia tem a voz de madrugada.

66 comments 28 Fevereiro, 2009

tempo

minha idade é impronunciável.
no tempo,
no máximo serviria para dizer por quantos sábados
eu poderia dizer a oração de viníciius
e cometer coisas não aceitas,
“porque hoje é sábado”
também serviria para instalar os domingos
na minha vida, onde, por impaciência,
pouco me sobra

16 comments 28 Fevereiro, 2009

a nostalgia da tela rega tudo.
são sangues que desviam tua alma.

12 comments 25 Fevereiro, 2009

quando restar, espero-te

quando do esquálido de mim te faz em chamas?
quando, entranhas frêmitas, me fazes no teu corpo?
se estatelas de vez, de tão bem-fadada,
mão de estremecido gesto, me relatas.
ficam-me tuas sobras.
caminhas nuvem alta na manhã.
tua face me redime o tempo. o campo
do teu gesto, a fala da tua fala, densamente
me dormem.

18 comments 23 Fevereiro, 2009

a pedra que repousa no meu olho
carrega o mastro da noite

12 comments 21 Fevereiro, 2009

a mondrian, sem lhe dizer, palavra

quente frio, em pele.

– nus da manhã
– nus de qualquer aragem
– nus de todo apodo

jazem sobre o quadrado,
osso de todo o rosto.

sobrados são
– mondrian –
calças, meias, aragens.

o pêlo puro, resto essencial,
é a fala.

22 comments 20 Fevereiro, 2009

a turbidez do campo e do seu corpo
cabe ela toda, e só, num vau de rio.

11 comments 18 Fevereiro, 2009

a pantera

a fresta da pantera, uma lacuna.
o olho arranca coragem.
seu riso tem lábio de sangue,
presa de cio breve.
a mata lhe solta as vertigens
e os dias
entre rasgos de espadas, seu passo.
ribombo da garganta soa podres.
o dente esava a carne. a morte rompe.

a vida se revela.

16 comments 17 Fevereiro, 2009

poeta e noite

fênix:
a partir das insônias, fiz.

poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam.
há um poeta assim, em cada canto,
no redemunho do espanto que revelam.

poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão.
os dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.

tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados.
ao percorrer as noites pelas frestas
poetas são destroços renegados.

30 comments 15 Fevereiro, 2009

por joão cabral

sempre carrego um rio.
margens de atropelo, ilhotas ávidas
conduzem a água apertada.
sobra-lhes um derivar de peixe,
um corte do corpo do peixe,
a lama escorraçada.
o uivo do rio treme de pedra
e se estatela azul.
quando arcos sobram entre os dedos
o devaneio é morto.

o rio se abate como cão sem plumas.

13 comments 15 Fevereiro, 2009

gesto metálico, noite

desmontar o verbo infiel,
caridade maldita, praga estupefata.
o gesto de palavra pode ser
algo inserido entre tumulto e mão.

quando dizer recai, estremecido,
no alvo, a noite se caminha poldra.

47 comments 7 Fevereiro, 2009

alice, avó

avó alice tinha como lide
mostrar-se sempre em traços de senhora.
pisar terras, deixar gados, ancestrais
de relevância em estirpe se dizer.

mais que dizer, fazer-se em relevância
inda tangente de tempos bem atrás.
porque alice, de terras, só lembrava
umas vazendas torpes, vaus de rios.

e quando rios se mostravam, tão varões
de antanho, carregados por diamantes,
é que alice por pulso refazia
seu desalinho, em mostra de importâncias.

tamanhas terras, gados, éguas, pratas
diziam restos de alice, tudo
o que se diz da posse, do libelo
da vida conseguida a foice e tiro.

contornos de fazenda são delitos.

20 comments 6 Fevereiro, 2009

a manhã faz tempo ser espinho

manhã flagelada do destino,
marcas de dedo em sua nuca podre
fazem banana e tempo serem unos.
o mel lhes come a face, repentina
face que encadeia luz. ritmos
e brasas cantam como dedos,
lavra infiltrada de só menoscabo.

o óbvio do pêlo, umas membranas
atadas de nervo e amargura,
esta poesia, clausura e hábito,
de gelo nas veias, água e podridão,
fechada nos resguardos da noite,
solidão tesa
apressa a mão em distúrbios.

quanto dela, incendiada, vê o homem?

travado em pergaminho e vilarejo
um hábito de luz corrói seu tempo.

o meu extrato de pedra, a minha nuvem de atos,
obscurecem frio e madrugada.
corpo indigente permeia tempestade,
valo de luzes, contrição de medo.

as madrugadas fazem como lã
o ritmo da estrada, ovelha e pasto.
intenso e belo estado putrefato
do corpo! emoções me causam
um estardalhaço de anões na alma.

10 comments 5 Fevereiro, 2009

a cumiada do olho

se tua manhã fosse avessa
nem moitas lhe sobravam.

o mais breve dos anjos tem um justo sono.

2 comments 5 Fevereiro, 2009

rasos, 2

1.
é-lhe, desmedido.como que o cru
dos cantos. em ponta, sumidouros. suor lhe
faz a testa. um raio cerca margens. as
costas, um objeto do mundo. sempre em
caminho. trilhos lhes sobre. o rubi
do olho ferve. rútilo. sempres é um tempo
forjado. cada, no olho, tempo. mais que
por sobre, saber.
vido no riso da luz.

2.
caçava manhã como fôra outra. inda des-
vanecia tempos. um trôpego de borboleta
farfala. cisco de vento. regaço de dente faz
riso. uma alma leve no candorado da noite.

3.
tinha aspas na vida e no tempo. um
dobro lhe falava.

4.
menina marta não recasa. colo segura,
passarinho solta. ontem que revive
é halo de fruta. outros mais que ontem.
sabidências.

5.
perfil dalata. corre a manga.

6.
som de caminho reto.

19 comments 31 Janeiro, 2009

rasos, 1

1.
éramos de dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos de
mundo, tudo. alargado coração em corpo.
similares das margens.

2.
trago margens de rios. peixes me lambem.
como visgo, vejo coração. cabelo de
retardo. a caminhada é sol que rumino.
a solidão pronta, jaça sem jaça.

3.

ontem, o través me trouxe. deixou-me
mudo, como que sangue. fiz-me em folha.

4.
anteontens quiseram mais. restaram
corpos em sobre. assins fazem.

13 comments 30 Janeiro, 2009

todo sertão é um caldo de tortura

o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.

29 comments 26 Janeiro, 2009

para renata

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã,fel em mim,
entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.

31 comments 22 Janeiro, 2009

tião, por romério

1. o mau humor do tião nunes é pra lá de engraçado. um dia, numa declaração súbita a mim, disse: ”você é uma das poucas pessoas com quem eu gosto de conversar”.  enchi o peito de satisfação e ele prosseguiu: ”mas com meia hora de conversa sua eu já estou satisfeito”.

é possivel?

2. me parece que a maior diversão dele é falar mal do machado de assis. só pra me criar problemas com os amigos partidários do “bruxo do cosme velho”.

3. outra vez pergunto: ”tião, por quê você não aparece mais vezes em ouro preto? a zelinha vem sempre de carro. é só você vir com ela.” ele: ”eu detesto pegar carona”. e a zelinha é a mulher dele.

4. ele me incentivou a escrever um livro de literatura infantil. escrevi e mandei pra ele, pra publicar na nossa “dubolsinho”. ele nem comentou a respeito. um dia eu perguntei quando o meu livro seria lançado. resposta do tião: ”eu não vou publicar esse livro. eu não sei se ele vai vender.”

5. meu amigo me dá trabalho. há poucos dias me reclamou que eu não tinha sido duro o suficiente com ele numas decisões da editora. eu expliquei que nas conversas ele estava muito seguro das posições que defendia e eu tinha deixado. resposta: ”eu nunca estou seguro. se eu parecer seguro, eu não estou seguro, estou só entusiasmado.” agora, a cada 2 dias, eu passo um e-mail pra saber se ele está administrando bem a editora

13 comments 19 Janeiro, 2009

(mau) humor e poesia

quero destacar a matéria de “o globo” de hoje sobre o escritor, ex-poeta e dono da estética da provocaçao, sebastião nunes. no caderno prosa & verso.

Do Prosa & Verso, do Globo

Verve iconoclasta

Três lançamentos jogam luz sobre a obra do mineiro Sebastião Nunes, que, aos 70 anos, é cultuado por críticos e escritores

Ele talvez seja o melhor escritor brasileiro do qual você nunca ouviu falar. O mineiro Sebastião Nunes comemorou no mês passado 70 anos de vida e 40 de uma carreira literária da qual poucos tomaram conhecimento, mas que lhe rendeu admiradores como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes e Antonio Candido.

Os três estão entre os leitores fiéis que ao longo dos anos remeteram cheques à casa do autor, em Sabará, para subvencionar as tiragens de poucas centenas de exemplares em que Nunes publicou a maioria das suas obras, combinações inclassificáveis (”já fui acusado até de concretista e de pornográfico”, ironiza) de texto e imagem vendidas pelo correio e editadas em formatos incomuns (uma delas vinha acomodada num pequeno caixão).

Com esses meios modestos de divulgação, ele construiu sua reputação dentro de um círculo reduzido de leitores, do qual fazem parte críticos como Silviano Santiago e Flora Süssekind, e escritores como Sérgio Sant’Anna e Joca Reiners Terron.

Desde a estreia em 1968 com “Última carta da América”, o gosto pela sátira e o tom cáustico lhe valeram também alguns contratempos, com leitores talvez menos esclarecidos, como o governo de Minas Gerais (que recolheu um jornal estatal onde circulava o poema “As rampas do palácio”, reproduzido na página 2). Donos de gráficas se recusaram a publicar um de seus poemas por causa de palavrões.

Três lançamentos recentes permitem que a obra de Sebastião Nunes seja conhecida além do meio em que hoje circula. A editora paulista Altana reeditou no mês passado dois livros dele, “Decálogo da classe média” e “Somos todos assassinos”.

Já a UFMG acaba de mandar para as livrarias “Sebastião Nunes”, de Fabrício Marques, autor de uma tese de doutorado sobre Nunes defendida na UFMG. O livro reúne um estudo crítico, correspondência, entrevistas, um inédito e uma pequena antologia.

2 comments 19 Janeiro, 2009

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