uns idiotas me pararam
uns idiotas me pararam
e me disseram umas poucas e boas:
que eu não caminho direito
e nem bato continência como devo
que a minha contra-mão é perdida
e só eles dominam os arcos do mundo.
só eles sabem
e eu nem sou a revelação de um segredo.
contra eles eu só carrego a nudez do dia
e um desejo à esquerda da terra.
romério rômulo
as deusas de Kandinsky, 1
as deusas brancas:
chumaços de algodão
pelas barrancas
as deusas negras:
extratos de carvão
das trancas
as deusas, luzes
fumaça, contração
de obuses.
romério rômulo
rivotril, 44
rivotril, o levedo permanente
versa tudo do couro menestrel
sua boca, retorta, puro dente
morde mais do que bala parabel
como carne travada, incandescente
numa terra montada a leite e fel
todo dia põe guizo na serpente.
rivotril é o diabo. foi pro céu.
romério rômulo
terras, 2
a musa que me escorraça
é pura agonia lenta
cozida em samba e cachaça
madeira, fogo e fumaça
por terras que não se inventa.
romério rômulo
licores, 5
de tudo, meu bem, me lembro:
não chegaram, por ainda
os licores de dezembro.
do teu amor me padeço.
me faltam agora, viu?
na minha paixão infinda
os teus licores de abril.
de nada, meu bem, me esqueço.
romério rômulo
vou me casar com clarice
vou me casar com clarice
1.
se eu me casar com clarice
-scliar que me responda-
terei de usar terneta?
terei de virar asceta?
o que faço? desde onde?
crio alma de poeta?
2.
depois das paixões mais loucas
depressões, esquisitices
scliar a vai pintar
e eu me caso com clarice
se surgir algum desvio
destes de último ato
pela costela de um rio!
me caso com seu retrato.
3.
quando a moça caminha pelos pastos
seus cabelos de nuvens, insensatos
os seus elos do mundo, tantos rastros
dos cavalos que roem alabastros.
4.
depois de festas vadias
clarice e eu nos amamos
nos rasgos da noite pia
clarice e eu nos casamos
na borda da luz do dia
clarice e eu nos matamos.
romério rômulo
a musa te arquiva entre os devassos
(remontar a musa, 1)
remonto a musa pelo seu joelho
junto bedéis, verrumas, um artelho
um gato vil, cruel como abril
feitiço nu bordado no espelho
nonada. a musa é a dura madrugada
que te consome a carne numa espada
que te corrompe o corpo feito nada
que te arranca o olho na mirada
comidas as missões, puros espaços
montadas solidões dos meus abraços
rimadas as monções e os seus traços
soçobram os navios nos bagaços
somados os pedaços, todos lassos
a musa te arquiva entre os devassos.
romério rômulo
