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uns idiotas me pararam

uns idiotas me pararam
e me disseram umas poucas e boas:
que eu não caminho direito
e nem bato continência como devo
que a minha contra-mão é perdida
e só eles dominam os arcos do mundo.

só eles sabem
e eu nem sou a revelação de um segredo.

contra eles eu só carrego a nudez do dia
e um desejo à esquerda da terra.

romério rômulo

5 maio, 2013 at 5:09 am Deixe um comentário

ordem do dia

ordem do dia

chamei os amigos à ordem do dia
e decidi revelar-lhes o estanho da cara:

quanto de mim é um anjo
e quanto assombração e pedra.

ficaram as vergonhas, todos os silêncios
e as vidas dos silêncios.

desmontei das sombras
e me afundei nas aguadas.

os cavalos, sobrados em pelo,
caminharam sobre a terra do cão.

romério rômulo

21 novembro, 2012 at 12:03 pm 1 comentário

meu anjo do sertão, 1

sobre mim há um olhar de só paixão
e um olhar bem maior que me odeia

manuelzão traz cavalos numa peia
com as éguas, estrelas do desvão
sua mão me defende e me rodeia

fui benzido nas águas do sertão.

romério rômulo

22 setembro, 2012 at 11:13 am 1 comentário

dig it, Seamus Heaney!

dig it, Seamus Heaney!

na poesia
debruçar sobre as vogais
os cerrados
e revolver as mulas da infância

quanto tempo gastei meu corpo bêbado
sobre os montes de terra
com as ferragens cozidas
pelos modos das gentes do meu povo

quantas guerras fiz
no meu braço de arame
que comia hóstias, corpos de santos
e moças fora do tempo

quantas sílabas contive nos dentes
com todos a me cobrar
a dívida da história.

são outros os perdões que eu mesmo peço.

romério rômulo

21 junho, 2012 at 1:42 pm 2 comentários

a orelha dura de van gogh

a minha carne é extrato em ferro
de uns demônios que destroem, loucos
os pavimentos do mundo e me cancelam

umas linguagens mortas, destratadas
pelo desejo de uma mão dobrada
que lhes entregue o morto a cada noite

quando romper o escuro é permanência
quando subir tapumes é maldade
ao me sobrar o canto iluminado

pela boca febril de caravaggio
pela orelha dura de van gogh
neste fantasma de casa que me cerca.

romério rômulo

19 junho, 2012 at 4:10 am 1 comentário

vila, 1

esta vila é uma verdade
plena de matos e pedras
rica de ouros e águas
espraiados pelos corpos
que ontem se viram escravos
nos atos mais comezinhos

onde cada ponte leva
onde cada água afunda
a memória dos algozes
do ouro por sucumbir
em lanhos, facas, machados
nos próprios ossos das gentes?

quanta carne se abriu
nos cantos desta cidade
que a fizeram roer ossos
e quebrar-se pelas pedras
entremeadas, devotas
com verdes caldos de lama?

o seu corpo é do diabo
a sua alma é fundida!

romério rômulo

18 junho, 2012 at 12:48 am Deixe um comentário

anjo ruivo

um anjo ruivo
que decide a noite
escava gavetas
faz o translado dos dentes
cuida das pontes
arranca os medos e os berros

um anjo ruivo
que varre e acerta bandolins
aperta poetas vadios
diz o nome dos bois
arranca os aços da vida

um anjo ruivo
que lava
a poesia ressecada.

romério rômulo

9 janeiro, 2012 at 1:01 pm 4 comentários

fragmento, 1

fragmento, 1

quando eu morrer amanhã, não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como van gogh
e um afro-samba travado de vinicius.

romério rômulo

2 janeiro, 2012 at 1:01 pm 1 comentário

lampião e maradona, fragmento

lampião e maradona, fragmento

sou um cabra danado de vazio
cada furo que faço é um arrepio.
cada poça de água, ceará
bem-me-quer, mal-me-quer
mas não me dá.

romério rômulo

26 dezembro, 2011 at 8:24 am 3 comentários

mote para dezembro, 1

eu deixo a casa vazia
meus cavalos d’além mar
um caravaggio nos ossos
um maradona no olhar
um goya feito do avesso
meu corpo sem endereço

se dezembro me matar.

romério rômulo

18 dezembro, 2011 at 6:14 am 1 comentário

não consigo me livrar desse poema

tenho medo.
o medo de viver sob essa pele,
o medo das mulheres que me absolvem do pecado,
o medo do câncer que termina em morte.
medo das estradas sem caminho,
do envolver o espanto do meu olho
e derivar os poemas da noite.
medo dos cachorros é o que tenho.
tenho medo dos cavalos,
da beleza que destilam
quando eu não consigo a coragem de vê-los.
tenho medo do olhar,
de todos os olhares:
a vida lhes pulsa o meu medo
e só me cabe retê-los um pouco.

o grande medo,
o medo que estarrece,
o medo que me promete a explosão da carne,
é o medo da pele que me come
e eu não vejo.

não sei da vida,
não sei da morte e suas atrofias
e me revelo no medo.
tenho medo da loucura,
das mentiras e verdades que me roem,
do meu sono e da minha insônia.
o suicídio é um alento carregado de medo:
o medo do fracasso.

a coragem
é o arremedo
da minha clave escondida.

de todos os medos
arranquei meu dia
e não consigo me livrar desse poema.

romério rômulo

12 dezembro, 2011 at 3:00 pm 5 comentários

dados, lance 1

se bem me esqueço
nascer é tropeço

se bem me lembro
morrer é dezembro

tudo é um jogo
de terra e fogo

a embebedar
a água e o ar.

romério rômulo

6 dezembro, 2011 at 12:12 pm 1 comentário

o dezembro de Kafka, 1

a neta de Kafka
foi colhida nas máquinas de um senhor de 12 anos.

retrato brusco,
desde então há um risco no meu olho
meus cavalos mostram impotência
as vestais se amputam na pele
o absinto desova suas águas.

censurada
essa mulher é a pedra do meu rim.

devem ser razões do próximo dezembro.

romério rômulo

28 novembro, 2011 at 5:22 am 2 comentários

dezembro 1, 2

1.
neste dezembro eu vou pisar o estio
com toda a truculência do vazio.
2.
me declaro cavalo e pecador
temporais de um corpo inexistente.

em dezembro me caso por amor.

romério rômulo

21 novembro, 2011 at 6:24 pm 1 comentário

o corte da terra

a vida, solidão, toda impotência
caminha numa pele de novelo
onde ela rasga a carne em desmantelo
a demonstrar ao mundo abstinência.

pudera ser mais torpe e mais estrada
nos meus cavalos, encantos, aguaceiros.

a vida se acabou em quase nada.

romério rômulo

14 novembro, 2011 at 3:19 am 2 comentários

éguas, aquedutos e estradas

as musas de concreto sublevadas
são éguas, aquedutos e estradas.

por veias e vielas eu já soube:
fui o último poeta que lhes coube.

em cammonds, cabrais e águas lusas
os meus cavalos se matam nessas musas.

romério rômulo

7 novembro, 2011 at 1:41 pm 1 comentário

tarefa, 1

recolho a tarefa concreta
de levar a poesia ao descalabro
e à liberdade.

visto a tarefa concreta
de aspergir de poesia cada osso
e o pão devido.

sem a tarefa cumprida
estarei inútil.

romério rômulo

31 outubro, 2011 at 6:00 pm 1 comentário

à clara moça dos poetas

sou casto pelo corpo e suas névoas
na rouquidão das guerras que nos partem
nas armas mais sutis que nos magoam

o corpo e a alma das vertentes podres
só me abalam em terras arrasadas
de aço chucro, de cimento aspro.

você é a clara moça dos poetas.

romério rômulo

23 outubro, 2011 at 2:05 pm 2 comentários

musa, 15

montei o mal em pelo
cadenciei a vida
a força que me aguenta

deixei a minha raiva na sua venta
no calo mais feroz da madrugada

a musa que me coube foi domada!

romério rômulo

17 outubro, 2011 at 2:31 am 4 comentários

a vida, augusto!

os cordéis da morte me perturbam.
saiba eu quando virá a companheira
quero revê-la, à tarde, por inteira
como agregado de cal à própria sorte.

a vida, augusto, já contém a morte!

(“per augusto & machina”, 2009)

romério rômulo

10 outubro, 2011 at 6:27 pm 2 comentários

o mais armado dos homens, 3

sou o mais limpo dos homens.

as orelhas, vão do corpo, abelhas
têm perfumes, extratos e odores
que mais parecem um ramal de flores
no trovejar do mundo em centelhas.

romério rômulo

4 outubro, 2011 at 3:03 pm 1 comentário

menestréis, 1

os menestréis do mundo são bem poucos.
uns arrebentam amores enlutados
outros se encantam nas paixões, já loucos.

romério rômulo

30 setembro, 2011 at 5:20 am 2 comentários

o mais armado dos homens, 2

meus olhares são frases depravadas.

minhas chamas no mato, minhas fadas
arrebatam o tronco das manadas
de bois, todos eles meu tormento.

as suas carnes pacientes eu invento
a debelar as fomes povoadas.

romério rômulo

25 setembro, 2011 at 10:52 am 2 comentários

lilith, 1

essa mulher tirou o bem do mal.
seu nascimento explica o mundo e as sobras.

eu sou o bêbado da fonte principal.

romério rômulo

23 setembro, 2011 at 6:53 am 4 comentários

maradona é o aço do sertão

1.
chamei um cancão de fogo
cangaceiro arrematado
pus maradona no jogo
pra fazer logo o melado
o homem já sabe tudo
num violão de veludo
toca bem tango e xaxado.

2.
no olhar sagrado do cancão
maradona é o aço do sertão.

romério rômulo

20 setembro, 2011 at 12:09 pm 1 comentário

e só, é tudo

me decidi te ver
inteira, nua
uma mulher que é vento
e que é rua.

me decidi te amar
em meu quebranto
uma mulher que é sopro
e é espanto.

me decidi dizer-te
e fiquei mudo
uma mulher que é só
e só, é tudo.

romério rômulo

18 setembro, 2011 at 4:28 am 4 comentários

poesia, 5

eu não faço poesia
e encerro o assunto

é preciso o mundo
a roda do mundo
a mão humana do mundo

a poesia só vale
se trouxer comida mas mãos.

romério rômulo

11 setembro, 2011 at 5:38 pm 1 comentário

curva, 1

a poesia é seca
tem alma de deserto
pele curva

a poesia é suja.
quem não quer a missão
saia de perto.

romério rômulo

8 setembro, 2011 at 6:33 am 3 comentários

rivotril 14, 15

14.
cappuccino amanhece desabado
pelas cores da pátria mãe gentil
com as veias no lance deste dado
o meu tubo letal de rivotril.

15.
cappuccino é um desvio de conduta
pelos céus encerados do brasil
minha musa, a mais filha da puta
cai de amores aos pés do rivotril.

romério rômulo

4 setembro, 2011 at 11:06 am 2 comentários

ópera, 1

no minifundio de roupa
amarrado por ingaços
caibo eu, cabem as tramas
minhas obras, meus abraços

meu muro, todo de espaços
meu palco, santo vazio
meus amores mais devassos
a seca feita no cio

as cantigas, todas lama
as águas destes meus poços.

quanta vida pela rama
na folhagem dos meus ossos!

romério rômulo

1 setembro, 2011 at 3:43 am 1 comentário

poesia, 5

há poetas que cozinham
noite e dia
na suave oficina da poesia

eu cozinho a poesia
chifre e rabo
na dura oficina do diabo.

romério rômulo

29 agosto, 2011 at 10:35 am 2 comentários

musa e vestal, 1

1.
a musa e a vestal são meus abismos.
se abro uma, contém mirabolâncias
se abro outra, descubro silogismos.

vou revelá-las em todas as instâncias
cobertas de razão, mas sem juízo.

2.
a musa e a vestal são as amantes
do meu corpo imperfeito de narciso
e cegamente refletem meus juízos
num estado de ferro e de diamante.

vou amansar uns ópios indecisos.

romério rômulo

26 agosto, 2011 at 3:54 pm 3 comentários

desmontar a musa, 1

1.
eu pego da amada os parafusos
e reconheço cada, nos seus usos.
jumelos, lambrequins e outras gentes
monto e desmonto os olhos e os dentes.

daí carrego a musa em meus arreios
pra assegurar os tanques e os freios.

a vida já virou uma caçada
quem sabe dos chassis da minha amada?

2.
vou remontá-la toda, em madrugada
numa poesia de dança e gargalhada.

romério rômulo

23 agosto, 2011 at 3:25 pm 5 comentários

maradona, virgulino e limeira, 1

1.
eu chamei maradona e virgulino
pra um serviço no couro do sertão
minha alma de santo e de menino
escondida num verso fescenino
se perdeu no primeiro palavrão.
2.
maradona sacou seu dom divino
virgulino vestiu de lampião
zé limeira ferveu no desatino
qualquer deles não tem comparação.

ninguém viu um encontro tão moderno
o sertão é o beco do inferno.

romério rômulo

18 agosto, 2011 at 9:14 am 2 comentários

maradona torceu o parafuso

1.
maradona torceu o parafuso
e bebeu o gol de muitas gentes
com o cântico dos cânticos cafuso
fez tremer as terras e os dentes
dos corpos a sobrar, todos confusos
por sua bala no teto dos desplantes
sob a injeção de deuses e descrentes
num pisar de anões e de gigantes
a encantar caretas e dementes.
2.
maradona torceu o parafuso
encontrou o pavão misterioso
com um gol, o mais belo e amoroso
fez cair toda regra em desuso
ao rasgar a nervura do tufão.

maradona, percebido furacão
a caber numa banda de tambores
com a alma mordida de amores
sex pistol que joga com a mão
carregado na poeira dos andores
por um santo de cícero romão.
3.
pra mirar no poeta, cão recluso
maradona torceu o parafuso.

romério rómulo

13 agosto, 2011 at 12:29 pm 1 comentário

se eu fosse maradona, 25

olhando por cima d’ água
eu sou bicho mamulengo
no anzol e na anágua
plantei muito capim bengo
plantei pólvora, novelo
espinho, pele e cabelo
comprei cavalo, novilho
pelo fim toquei sanfona
de tudo comprei, meu filho

ah! se eu fosse maradona!

romério rômulo

11 agosto, 2011 at 3:21 pm 3 comentários

posses, 1

no meu olhar de alçapão
na minha pele de escova
na minha mão de bigorna
no meu dedo só impulso

no meu enfado bandido
no meu riso de atropelo
no meu antro de desdém
na minha quadra de luzes

na minha vila 18
no meu cabelo de estopa
a minha casa dos contos
o meu quinto dos infernos.

romério rômulo

7 agosto, 2011 at 4:00 am 3 comentários

os meus cavalos são mesmo poetas

1.
bandeira chega em observação
pelos cavalos sábios, eles todos.
carrega as suas patas como rodos
a abater o mundo em poesia.

bandeira só faz versos na agonia.

2.
há um cavalo nos pastos, de sonetos
imbuídos das estradas mais sutis
seus olhos arrombados foram pretos
suas pisadas todas são febris

e trazem tudo sobre os atropelos
na sua fonte, noite de novelos
das águas, dos azuis, dos desmantelos.

3.
camões tem o beneplácito das sombras
de umas damas pias e gozosas
pelo seu tempo dormem nas alfombras
são umas éguas vis e saborosas.

romério rômulo

3 agosto, 2011 at 1:57 pm 4 comentários

lodo, 1

eu caibo na manhã
eu caibo todo
com a minha febre terçã
e o meu lodo.

romério rômulo

 

1 agosto, 2011 at 4:32 pm 1 comentário

amor 5, 6, 7

5.
o amor é faca sem corte
te faz promessa, te beija
te retalha, te esquarteja
te sangra perto da morte.
6.
o amor é riso, depressão, paulada
concerne sempre a um estado puro
onde o tratado, cada vez mais duro
faz do meu corpo gado de invernada.
7.
há um amor. e ela é minha amada
temos, os dois, o mesmo endereço
tudo funciona, que na nossa estrada
um vê o outro sempre pelo avesso.

romério rômulo

29 julho, 2011 at 7:23 pm 3 comentários

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