se eu fosse maradona, 32

procuro palavra a frio
pra rimar com maradona
encontro um bago de rio
uma mulher, uma zona
um encanto de madona
o estrilo das pipetas
nos camburões. as buretas
que aquecem todo gol.
a perna que arremata
um pão chamado baguete
uma bola feita alma
treta, preta, bola sete
que tritura a minha calma
de desditar a rainha:
uma beth não bendita
arrematada na tripa
de um gago feito rei.

maradona passa a bola
a kusturica. a degola
faz-se em nítido segundo:
gol na rainha da zona!
maradona é todo mundo.

ah! se eu fosse maradona.

romério rômulo

3 março, 2012 at 3:19 pm 1 comentário

carpintaria, 1

1.
pelo grosso
as musas só me roem a pele e o osso.
2.
no geral
as musas só me fritam em água e sal.
3.
num cambão
as musas me derretem em solidão.

romério rômulo

28 fevereiro, 2012 at 2:51 pm 1 comentário

travessia, 1

se ela quiser eu vou
faço logo a travessia.
manuelzão já me chamou.

inda que seja na cheia
atravesso o vau de rio
com um cavalo na veia.

o sertão é gado limpo
música semi colcheia.

com que roupa eu chego lá?
que pente que me penteia?

romério rômulo

26 fevereiro, 2012 at 6:08 am 2 comentários

rivotril, 16

a moça sugeriu a camomila
pra segurar meus cálidos pavores.
mas o diabo é sempre a minha vila:

aqui só servem rivotril. sem flores.

romério rômulo

17 fevereiro, 2012 at 1:23 pm 1 comentário

aço, 1

eu construí a musa de improviso
com uma carne feita de maçã
e uma terra certa: o paraíso.

mas eu padeço de febre terçã
e o seu olhar de aço foi o aviso:
a minha musa é toda em rolimã.

romério rômulo

12 fevereiro, 2012 at 6:45 am 3 comentários

o braço de manuelzão, 1

minas é um rio comprido
como um cachorro latido
no braço de manuelzão

eu olho minas de perto
como tecido coberto
pelo balaço do mar

manuelzão e mar são coisas
de fazer minas chorar.

romério rômulo

4 fevereiro, 2012 at 2:26 pm 5 comentários

sal, 1

morrer é um traço musical
desmanche da carne,toque de instrumento
navio aportado, soco duro.

a vida assombrada é um fragmento
emergido da terra, uma fogueira
onde a terra sem vida é uma beira
emoção do que é doce e virulento.

navio aportado, soco duro
o corpo me carrega em sal impuro.

romério rômulo

2 fevereiro, 2012 at 6:12 am 2 comentários

minha poesia está solta na vila

sou o poeta canônico
das estrofes adversas, dos terrenos baldios
dos dezembros de osso e pedra.
elevo a inflexão nos sonetos
como um antônio das mortes.
os loucos e os bichos me ouvem.

já fiz orações a vieira, a antônio de pádua
aos apóstolos pedro e paulo
a vinicius e baden.
rezei com os tincoãs na freguesia
e os muros lavaram os meus horrores.

minha poesia está solta na vila.

romério rômulo

28 janeiro, 2012 at 6:32 am 3 comentários

eu sempre fui ao coração das coisas

eu sempre fui ao coração das coisas
revelei minhas tripas aos insensatos
e velejei pelos mares mais torpes
em busca da ciranda.
parti todas as lanças que me mandaram
e, no último instante, arremessei meus ossos
no lodo.

quando virem um ser penado
uma vaga incandescente nas valas
contem certo:
sou eu atravessado nos pastos.

romério rômulo

24 janeiro, 2012 at 5:49 am 9 comentários

a sua pele branca de algodão, 1

a sua pele branca de algodão, 1

não fujo de uma rosa dolorida
nem quero a solidão tumultuada.

para morrer eu só carrego a vida.

romério rômulo

20 janeiro, 2012 at 6:40 am 8 comentários

montar a musa, 1

montar a musa é um estado lindo
por só cair em exercício findo.
os pedestais, coivaras e delírios
são pontes soltas pelos meus martírios.

quanta poesia rebelde e insensata
já me queimou na esfera correlata!

romério rômulo

16 janeiro, 2012 at 1:44 pm 1 comentário

anjo ruivo

um anjo ruivo
que decide a noite
escava gavetas
faz o translado dos dentes
cuida das pontes
arranca os medos e os berros

um anjo ruivo
que varre e acerta bandolins
aperta poetas vadios
diz o nome dos bois
arranca os aços da vida

um anjo ruivo
que lava
a poesia ressecada.

romério rômulo

9 janeiro, 2012 at 1:01 pm 4 comentários

fragmento, 1

fragmento, 1

quando eu morrer amanhã, não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como van gogh
e um afro-samba travado de vinicius.

romério rômulo

2 janeiro, 2012 at 1:01 pm 1 comentário

lampião e maradona, fragmento

lampião e maradona, fragmento

sou um cabra danado de vazio
cada furo que faço é um arrepio.
cada poça de água, ceará
bem-me-quer, mal-me-quer
mas não me dá.

romério rômulo

26 dezembro, 2011 at 8:24 am 3 comentários

mote para dezembro, 1

eu deixo a casa vazia
meus cavalos d’além mar
um caravaggio nos ossos
um maradona no olhar
um goya feito do avesso
meu corpo sem endereço

se dezembro me matar.

romério rômulo

18 dezembro, 2011 at 6:14 am 1 comentário

não consigo me livrar desse poema

tenho medo.
o medo de viver sob essa pele,
o medo das mulheres que me absolvem do pecado,
o medo do câncer que termina em morte.
medo das estradas sem caminho,
do envolver o espanto do meu olho
e derivar os poemas da noite.
medo dos cachorros é o que tenho.
tenho medo dos cavalos,
da beleza que destilam
quando eu não consigo a coragem de vê-los.
tenho medo do olhar,
de todos os olhares:
a vida lhes pulsa o meu medo
e só me cabe retê-los um pouco.

o grande medo,
o medo que estarrece,
o medo que me promete a explosão da carne,
é o medo da pele que me come
e eu não vejo.

não sei da vida,
não sei da morte e suas atrofias
e me revelo no medo.
tenho medo da loucura,
das mentiras e verdades que me roem,
do meu sono e da minha insônia.
o suicídio é um alento carregado de medo:
o medo do fracasso.

a coragem
é o arremedo
da minha clave escondida.

de todos os medos
arranquei meu dia
e não consigo me livrar desse poema.

romério rômulo

12 dezembro, 2011 at 3:00 pm 5 comentários

dados, lance 1

se bem me esqueço
nascer é tropeço

se bem me lembro
morrer é dezembro

tudo é um jogo
de terra e fogo

a embebedar
a água e o ar.

romério rômulo

6 dezembro, 2011 at 12:12 pm 1 comentário

o dezembro de Kafka, 1

a neta de Kafka
foi colhida nas máquinas de um senhor de 12 anos.

retrato brusco,
desde então há um risco no meu olho
meus cavalos mostram impotência
as vestais se amputam na pele
o absinto desova suas águas.

censurada
essa mulher é a pedra do meu rim.

devem ser razões do próximo dezembro.

romério rômulo

28 novembro, 2011 at 5:22 am 2 comentários

dezembro 1, 2

1.
neste dezembro eu vou pisar o estio
com toda a truculência do vazio.
2.
me declaro cavalo e pecador
temporais de um corpo inexistente.

em dezembro me caso por amor.

romério rômulo

21 novembro, 2011 at 6:24 pm 1 comentário

o corte da terra

a vida, solidão, toda impotência
caminha numa pele de novelo
onde ela rasga a carne em desmantelo
a demonstrar ao mundo abstinência.

pudera ser mais torpe e mais estrada
nos meus cavalos, encantos, aguaceiros.

a vida se acabou em quase nada.

romério rômulo

14 novembro, 2011 at 3:19 am 2 comentários

éguas, aquedutos e estradas

as musas de concreto sublevadas
são éguas, aquedutos e estradas.

por veias e vielas eu já soube:
fui o último poeta que lhes coube.

em cammonds, cabrais e águas lusas
os meus cavalos se matam nessas musas.

romério rômulo

7 novembro, 2011 at 1:41 pm 1 comentário

tarefa, 1

recolho a tarefa concreta
de levar a poesia ao descalabro
e à liberdade.

visto a tarefa concreta
de aspergir de poesia cada osso
e o pão devido.

sem a tarefa cumprida
estarei inútil.

romério rômulo

31 outubro, 2011 at 6:00 pm 1 comentário

à clara moça dos poetas

sou casto pelo corpo e suas névoas
na rouquidão das guerras que nos partem
nas armas mais sutis que nos magoam

o corpo e a alma das vertentes podres
só me abalam em terras arrasadas
de aço chucro, de cimento aspro.

você é a clara moça dos poetas.

romério rômulo

23 outubro, 2011 at 2:05 pm 2 comentários

musa, 15

montei o mal em pelo
cadenciei a vida
a força que me aguenta

deixei a minha raiva na sua venta
no calo mais feroz da madrugada

a musa que me coube foi domada!

romério rômulo

17 outubro, 2011 at 2:31 am 4 comentários

a vida, augusto!

os cordéis da morte me perturbam.
saiba eu quando virá a companheira
quero revê-la, à tarde, por inteira
como agregado de cal à própria sorte.

a vida, augusto, já contém a morte!

(“per augusto & machina”, 2009)

romério rômulo

10 outubro, 2011 at 6:27 pm 2 comentários

o mais armado dos homens, 3

sou o mais limpo dos homens.

as orelhas, vão do corpo, abelhas
têm perfumes, extratos e odores
que mais parecem um ramal de flores
no trovejar do mundo em centelhas.

romério rômulo

4 outubro, 2011 at 3:03 pm 1 comentário

menestréis, 1

os menestréis do mundo são bem poucos.
uns arrebentam amores enlutados
outros se encantam nas paixões, já loucos.

romério rômulo

30 setembro, 2011 at 5:20 am 2 comentários

o mais armado dos homens, 2

meus olhares são frases depravadas.

minhas chamas no mato, minhas fadas
arrebatam o tronco das manadas
de bois, todos eles meu tormento.

as suas carnes pacientes eu invento
a debelar as fomes povoadas.

romério rômulo

25 setembro, 2011 at 10:52 am 2 comentários

lilith, 1

essa mulher tirou o bem do mal.
seu nascimento explica o mundo e as sobras.

eu sou o bêbado da fonte principal.

romério rômulo

23 setembro, 2011 at 6:53 am 4 comentários

maradona é o aço do sertão

1.
chamei um cancão de fogo
cangaceiro arrematado
pus maradona no jogo
pra fazer logo o melado
o homem já sabe tudo
num violão de veludo
toca bem tango e xaxado.

2.
no olhar sagrado do cancão
maradona é o aço do sertão.

romério rômulo

20 setembro, 2011 at 12:09 pm 1 comentário

e só, é tudo

me decidi te ver
inteira, nua
uma mulher que é vento
e que é rua.

me decidi te amar
em meu quebranto
uma mulher que é sopro
e é espanto.

me decidi dizer-te
e fiquei mudo
uma mulher que é só
e só, é tudo.

romério rômulo

18 setembro, 2011 at 4:28 am 4 comentários

poesia, 5

eu não faço poesia
e encerro o assunto

é preciso o mundo
a roda do mundo
a mão humana do mundo

a poesia só vale
se trouxer comida mas mãos.

romério rômulo

11 setembro, 2011 at 5:38 pm 1 comentário

curva, 1

a poesia é seca
tem alma de deserto
pele curva

a poesia é suja.
quem não quer a missão
saia de perto.

romério rômulo

8 setembro, 2011 at 6:33 am 3 comentários

rivotril 14, 15

14.
cappuccino amanhece desabado
pelas cores da pátria mãe gentil
com as veias no lance deste dado
o meu tubo letal de rivotril.

15.
cappuccino é um desvio de conduta
pelos céus encerados do brasil
minha musa, a mais filha da puta
cai de amores aos pés do rivotril.

romério rômulo

4 setembro, 2011 at 11:06 am 2 comentários

ópera, 1

no minifundio de roupa
amarrado por ingaços
caibo eu, cabem as tramas
minhas obras, meus abraços

meu muro, todo de espaços
meu palco, santo vazio
meus amores mais devassos
a seca feita no cio

as cantigas, todas lama
as águas destes meus poços.

quanta vida pela rama
na folhagem dos meus ossos!

romério rômulo

1 setembro, 2011 at 3:43 am 1 comentário

poesia, 5

há poetas que cozinham
noite e dia
na suave oficina da poesia

eu cozinho a poesia
chifre e rabo
na dura oficina do diabo.

romério rômulo

29 agosto, 2011 at 10:35 am 2 comentários

musa e vestal, 1

1.
a musa e a vestal são meus abismos.
se abro uma, contém mirabolâncias
se abro outra, descubro silogismos.

vou revelá-las em todas as instâncias
cobertas de razão, mas sem juízo.

2.
a musa e a vestal são as amantes
do meu corpo imperfeito de narciso
e cegamente refletem meus juízos
num estado de ferro e de diamante.

vou amansar uns ópios indecisos.

romério rômulo

26 agosto, 2011 at 3:54 pm 3 comentários

desmontar a musa, 1

1.
eu pego da amada os parafusos
e reconheço cada, nos seus usos.
jumelos, lambrequins e outras gentes
monto e desmonto os olhos e os dentes.

daí carrego a musa em meus arreios
pra assegurar os tanques e os freios.

a vida já virou uma caçada
quem sabe dos chassis da minha amada?

2.
vou remontá-la toda, em madrugada
numa poesia de dança e gargalhada.

romério rômulo

23 agosto, 2011 at 3:25 pm 5 comentários

maradona, virgulino e limeira, 1

1.
eu chamei maradona e virgulino
pra um serviço no couro do sertão
minha alma de santo e de menino
escondida num verso fescenino
se perdeu no primeiro palavrão.
2.
maradona sacou seu dom divino
virgulino vestiu de lampião
zé limeira ferveu no desatino
qualquer deles não tem comparação.

ninguém viu um encontro tão moderno
o sertão é o beco do inferno.

romério rômulo

18 agosto, 2011 at 9:14 am 2 comentários

maradona torceu o parafuso

1.
maradona torceu o parafuso
e bebeu o gol de muitas gentes
com o cântico dos cânticos cafuso
fez tremer as terras e os dentes
dos corpos a sobrar, todos confusos
por sua bala no teto dos desplantes
sob a injeção de deuses e descrentes
num pisar de anões e de gigantes
a encantar caretas e dementes.
2.
maradona torceu o parafuso
encontrou o pavão misterioso
com um gol, o mais belo e amoroso
fez cair toda regra em desuso
ao rasgar a nervura do tufão.

maradona, percebido furacão
a caber numa banda de tambores
com a alma mordida de amores
sex pistol que joga com a mão
carregado na poeira dos andores
por um santo de cícero romão.
3.
pra mirar no poeta, cão recluso
maradona torceu o parafuso.

romério rómulo

13 agosto, 2011 at 12:29 pm 1 comentário

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