sobre dezembros vamos dizer amanhã

abri minhas pastas e livros
e só encontrei dezembros.
sempre o final dos tempos
que me persegue e me atrai.
vi as noites, os taludes, os cachorros e seus antros
todos a lamberem dezembros.
meu olho indevido e a minha carne suja
pisaram os dezembros do corpo.
somos o implícito do tempo, a pele seca das garças
o antemão de tudo.
vestido em viagem
pus meu olho a serviço das pragas
revelei todas as tentações
e despejei meus desejos sobre o amiúde da vida.

o sopro do meu lábio e o vale do meu dente
só mostraram o tempo lavado.

sobre dezembros
vamos dizer amanhã.

romério rômulo

Anúncios

29 dezembro, 2012 at 4:13 am 1 comentário

nau francesa, 1

seu rosto de framboesa
sua carne de marfim
uma carne eterna acesa
do lábio por onde eu vim
seu gesto de nau francesa
tudo princípio do fim

quero saber da torpeza
que bate dentro de mim.

romério rômulo

23 dezembro, 2012 at 6:09 am Deixe um comentário

ordem do dia

ordem do dia

chamei os amigos à ordem do dia
e decidi revelar-lhes o estanho da cara:

quanto de mim é um anjo
e quanto assombração e pedra.

ficaram as vergonhas, todos os silêncios
e as vidas dos silêncios.

desmontei das sombras
e me afundei nas aguadas.

os cavalos, sobrados em pelo,
caminharam sobre a terra do cão.

romério rômulo

21 novembro, 2012 at 12:03 pm 1 comentário

meu anjo do sertão, 1

sobre mim há um olhar de só paixão
e um olhar bem maior que me odeia

manuelzão traz cavalos numa peia
com as éguas, estrelas do desvão
sua mão me defende e me rodeia

fui benzido nas águas do sertão.

romério rômulo

22 setembro, 2012 at 11:13 am 1 comentário

maradona e joão cabral

joão cabral quebrou a porta
cortou um pé de jurema
maradona driblou reto
e descreveu o poema
cabral respondeu: de certo
maradona é um teorema
e o teorema mais perto

teceram pelas manhãs
com o gado na invernada
usaram só um dobrado
dos seus benditos punhais
cabral com a rima seca
mais seca pelos sobrados
maradonas infernais

maradona foi refeito
na linha de pernambuco
topou com o rio ganges
onde comprou um trabuco
e montou umas falanges
pelo verso mais perfeito
com cabral, elo maluco

descrevo o circo sem lona
onde tudo é tal e qual
ah! se eu fosse joão cabral!
ah! se eu fosse maradona!

romério rômulo

1 agosto, 2012 at 3:30 am 4 comentários

fragmento por joão cabral

o amor comeu minha mentira, meu riso, minha dor.
o amor comeu o meu escasso e o meu amplo
o meu terno e a minha companhia.
os meus dedos se perderam nas suas procissões
nas suas leituras e cadências.

quando o amor chegava eu via o desespero da morte.

romério rômulo

12 julho, 2012 at 4:55 am Deixe um comentário

quando todos partirem

1.
quando todos partirem
eu vou ficar sem muros
e o silêncio dos cachorros
vai desabar sobre mim

penso nas ladainhas a rezar
nos bancos que serão meus assentos
e na ausência das aves

as pedras do meu olho
vão cair nos rios
e a minha mão
vai moer as cordas do tempo

pela noite
minhas facas saberão das noites a cortar
dos bichos a saber
e do meu corpo desfraldado

as carnes não deixarão rastros
e o ferro das ruínas
não caberá no poema.

2.
quando o mundo acabar
vou mutilar meus braços
meu hálito, meu desacerto.

quando o mundo acabar
vou desatar a glória
dos deuses correntes:
todos os diabos vão ficar nos cantos
das vias destratadas

os sóis serão banidos
e o começo de tudo estará pronto
(cozido, costurado, morto)

no adro do tempo
nem o meu coração tremido
vai bater.

romério rômulo

8 julho, 2012 at 10:30 am 1 comentário

Posts antigos Posts mais recentes


Feeds

dezembro 2018
S T Q Q S S D
« set    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Top Posts

RSS Fênix em Verso e Prosa

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.