carta a Caravaggio, 4

25 junho, 2011 at 3:53 am 2 comentários

quando a morte arranca veemente
pelo pulso das feras mais mundanas
quando os gados te comem aos pedaços
e te mostram o caminho sem final

sobra ser um amante calejado
de amores e estradas carcomidas
a perder o olhar nos corpos turvos
das mulheres vestidas sobre lodo

uma fera me diz do teu outono
dos teus caldos e guizos imorais
das serpentes atadas numas luzes
dos teus ritos montados sobre farsas

estes mundos são todos uns punhais
de romper e lavar toda essa carne
surgida do pincel na tela impura
sobre as veias das putas aparentes

onde densa e cruel poesia sobra
numa dura e cruel poesia escassa
de cuidados com o tempo permanente.

a indigência da vida é o novelo.

romério rômulo

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absint, caravaggio, maradona, 1 os meus cavalos, fragmento

2 Comentários Add your own

  • 1. Mirze Souza  |  25 junho, 2011 às 10:14 am

    Caro poeta!

    Um poema forte como a lâmina de um punhal. Belo e trágico.

    Beijos

    Mirze

    Responder
  • 2. Kadu Mauad  |  25 junho, 2011 às 12:30 pm

    Olá, Romério, tudo oquêi nesta Vila Rica? Vim pela coincidência da nossa obra recém nata. O que ora abaixo está, fi-lo ontem à tarde. Tecemos sobre o mesmo tema?! Em ocasião do feriado estou na minha terra natal, São João Nepomuceno. Aqui, quase que sistematicamente passa um carro de altofalantes para divulgar os passamentos. Enquanto estava a olhar e-mails, o casal de tercetos praticamente chegou-me completos. Bastou-me enfeixá-los, procurar o argumento dos quartetos e zapt! Mais um soneto. Acho que nesse há uma inédita maturidade em seu artesanato. Estamos avançando na técnica! Oxalá!

    Soneto Fúnebre (O Carro do Som)

    Dentro ao sarcófago, no Antigo Egito,
    do escaravelho descobriu-se o louro,
    que, estando intacto, curou-se o mito
    de que dos mortos era o vivedouro.

    Tornou-se a vida após a morte um grito
    que mais aterra do que ajuda o mouro.
    Quantas parábolas não inventa o aflito
    que a eternidade a guarde em tal besouro.

    E o carro (fúnebre) do som passando
    lembra-me os pássaros do mal-agouro
    que grasnam mórbidos, e apregoando,

    mais uma carne de que rasgam o couro,
    em cujo fígado se almoça o bando
    que alvissareiro canta o seu tesouro.

    Responder

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