Todo grande poeta tem sua voz e vez

17 novembro, 2008 at 10:21 am 14 comentários

Sebastião Nunes
A poesia é a mais difícil das artes da palavra. Difícil de escrever, difícil de ler e difícil de apreender. Existem poetas tão complexos que só toleram ser compreendidos depois de longo aprendizado e várias leituras. Mas existem poetas tão simples que entregam o ouro logo de cara. No primeiro caso, temos Augusto de Campos, cuja poesia até hoje engasga boa parte dos leitores, cultos ou não. No segundo, temos Manuel Bandeira, dono de uma simplicidade maliciosa, que se deixa entender por qualquer leitor medianamente cultivado.

Essa gangorra vem balançando ao longo de toda a história da poesia, antiga ou moderna, como um pêndulo de movimentos aleatórios e oscilações imprevisíveis. Existem poetas ótimos, bons e ruins em ambas as tendências, sendo que a maioria dos ruins se perpetua atolada no meio do caminho, por falta de coragem, ousadia e – pior – de cultura.

Na segunda metade do século 20 tivemos, no Brasil, vários exemplos maiores dessas tendências, sem que um superasse o outro, já que o grande poeta é insuperável, incomparável e imensurável. Darei alguns exemplos brevíssimos.

Vejamos Adélia Prado, bizarra senhora que, de repente – não mais que de repente –, soltou os cachorros e botou na rua sua lírica confessional, que atoleimou os tolos e sublimou os degustadores da poesia rica, nova, original.

Quase simultaneamente surgiram Glauco Mattoso e Paulo Leminski. Frutos da generosa árvore concretista, não se tornaram epígonos. Excelentes poetas, foram capazes de aprender com os mestres e seguir em frente, abrindo suas próprias trilhas nos espinheiros da linguagem.

Antes deles, mas muito antes mesmo, o pantaneiro Manoel de Barros extraía proezas do lamaçal verbal, encantamentos das folhagens da língua, proezas e encantamentos que só foram percebidos muitos anos depois, com o poeta já velhusco.

Todos marcaram sua época, pois foram, e são, poetas referenciais. Pairam acima de correntes e tendências. Fundaram-se a si mesmos.

Pois bem. Eis que agora, depois de palmilhar longamente as estradas tortuosas da poesia, experimentando caminhos, atalhos, veredas e trilhas, em livros que indicavam o rumo mas não desvelavam segredos, Romério Rômulo desencanta de vez com Matéria Bruta, um livro que tem a grandeza e a maturidade dos poetas maiores.

Estamos diante de um poeta novo e original, autor de uma poesia radiosa como as primeiras manhãs do mundo, como toda poética fundadora. Mas gostaria de alertar: leiam devagar, lenta e pausadamente. Sintam os versos e os ritmos como eles se oferecerem. Porque estamos, perdoem se insisto, conhecendo a técnica sofisticada de um poeta inaugural e, por isso, na presença de um poeta que se tornou grande pela busca pessoal, individual, solitária. E que chegou lá, oscilando perigosamente no fio da navalha da linguagem, lá onde ela, a autêntica poesia, sopra quando quer, e só quando quer.

Como aperitivo seguem dois poemas escolhidos ao acaso, já que o nível nunca baixa e o tom é sempre alto.

a chuva que me habita não é chuva,
é um quadrado oblongo de facetas.
a quina do meu lábio, cada fresta
há de conter o rasgo destas almas.

as almas que te habitam são tão seres
que possam mergulhar na tua alma?
acaso, se carregas, tens um olho
que sabe a múltipla face do meu rosto?

tentar pode ser mais, e se me levas
te trago incorporada, último dia.
(adentro o verde cinza da manhã)

o tumulto do corpo pode ausências.
calar tem por demais, arrefecido
instante da manhã chamado vento.
uns mistérios, dizer o mais que sono
sem a palavra livre revelada.

quando uma carne concebe, intimamente,
uma outra carne rasura seu instante
mais breve de pedra. e saber
aquilatar é tudo, face o tempo.

que outros mais dizer irão, somente,
sabedorias se nem cabe a rouca
lamúria que no lábio sempre espera
pelo espaço de só ser lamúria.

(o corpo pode ausências)

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Entry filed under: Imprensa, Matéria Bruta, Outros autores.

quando manhã te nasce tempo quando

14 Comentários Add your own

  • 1. Moacy  |  17 novembro, 2008 às 1:19 pm

    Tião é grande. Tião é dos nossos. Em tempo: dessda vez, o CDC vai de verdade. Sem falta. Um abraço.

    Responder
  • 2. Romério Rômulo  |  17 novembro, 2008 às 4:51 pm

    moacy:
    o tião é fera e é um grande companheiro.o cdc será recebido
    com honras.
    um abraço.
    romério

    Responder
  • 3. silas c. leite  |  18 novembro, 2008 às 8:11 pm

    Olá Romério
    Saudações
    Belo site o seu. Veja os meus tb
    http://www.portas-lapsos.zip.net
    ou: http://www.campodetrigocomcorvos.zip.net
    Pois é, o Vassalu é pra cinema, fílmico, bem bolado. Pra mim, escrever bem é o criar em si, a fabulação. Aliás, dizem que eu escrevo sobre coisas que ninguém pensou que um ser humano poderia escrever um dia (fantástico, surreal), pelo menos nas minhas ficções e livros de prosa.Foi essa “loucura”(loucura?) que me indeitificou com o Vassalo, o Humberto Eco, o Ítalo Calvino etc. e tal.
    Então vc tem livros?
    Conte lá que eu conto cá
    Abraços
    Silas

    Responder
  • 4. silas c. leite  |  18 novembro, 2008 às 8:13 pm

    MICROCONTOS – Contos Encolhidos – Silas Corrêa Leite

    Raposas

    Chegou em casa e a mulher estava com o açougueiro na sua antiga cama de casal. Já a vira com o padeiro, o lenhador, o entregador de raposas. Depois o leiteiro, o encanador e o engolidor de fogos do Circo São Judas Tadheu. Foi pro quarto chorar escondido. Fumou com um certo medo-coisa. Só tinha de vida o conhaque com Fernet, o luar de Itararé, o violão e o dominó dominical com os amigos que o perdoavam por ser impotente.

    Vôo

    Queria ter nascido Vôo de Pássaro e não Ser “humanus”, disse certa vez o pianista chorão à imã micro-empresária. Ela assustou-se a principio, mas estava acostumada com ele que era mais novo e metido a Poeta Cubista e visionário nas horas vagas. Quando o coitado finalmente um dia anoiteceu e não amanheceu nunca mais, ela não se preocupou muito. Cuidou bem dos pertences íntimos, partituras clássicas e dotes financeiros dele, porque também sabia escondido que, cada Pássaro pousa um dia e, todo Vôo, cedo ou tarde vira cerca de tabuinhas brancas.

    Cego

    Cego de nascença, aprendeu a ler no escuro. Desde pequeno os livros lhe eram abertos, os toques lhe fundavam janelas, os sons lhe eram caminhos de pedras, polindo vazios de serventias, ninhais e encantários em palavras timbrais. Um dia achou um doador de córnea e pensou que os recursos adquiridos poderiam lhe render a visão total. Não aceitou ser operado por conta do governo, nem enxergar no claro. Ficou com medo de se olhar no espelho das pessoas e ter medo da escuridão que havia nelas.

    Crime

    Quando entrou pro Partido Liberal foi que descobriu que o crime compensava e dava imunidade parlamentar. E não havia riscos como nos assaltos a bancos e nas montadas glosas ao Fisco. E ainda podia retornar sempre ao local do crime, pois teria carteirinha do Juízo Eleitoral, o que lhe daria a guarida até da imunidade diplomática.

    Polenta

    Fazia uma polenta como ninguém no mundo. Parentes, vizinhos, amigos, todos brigavam por um pedaço daquela guloseima benta. Pensou em abrir um fast food com polenta e frango, polenta e ovo de codorna, polenta e leite condensado, polenta e mel-silvestre. Mas não deu certo o investimento e continuou caseiro e artesanal. Ninguém sabia o segredo desse confeitar perene, sequer que ela tinha lepra e as casquinhas das feridas ajudavam no delicioso e inigualável molho secreto.

    Volta

    Com 33 anos, a idade de Cristo, resolveu mudar de sexo, descrente que se restava com a herança genética-genital de varão molóide. Vendeu todos os bens e foi para o exterior fazer a coisa certa. Voltou quase dez anos depois. É que a operação lhe tirou toda a grana arrecadada, e, depois de fêmea artificial teve que se virar para levantar fundos e poder então voltar pobre e com Aids à saudosa Pátria Amada.

    Barriga

    Cada vez que tomava água no Chafariz do Bairro Velho na Estância Boêmia de Itararé, sentia borbulhos perto da barriga aos solavancos, com a sede não passando e a inanição estranha piorando. Quando comia era pior ainda. Inchava. Começou a engordar e alguns topetudos alegaram que ele, o Peu Cambalhota, estava era grávido. Levado ao hospital foi que veio à tona o inusitado. Tinha criado um girino na barriga que depois virou sapo-martelo com úlcera sonora.

    (FIM)

    Poeta Prof. Silas Corrêa Leite, de Itararé-SP, Autor do Livro Virtual
    O Rinoceronte de Clarice, onze contos fantásticos com três finais cada, um feliz, um de tragédia e um terceiro final politicamente incorreto (pioneiro, único no gênero, de vanguarda) no site http://www.hotbook.com.br/int01scl.htm
    E-mail para contatos: poesilas@terra.com.br
    Site pessoal http://www.itarare.com.br/silas.htm

    Responder
  • 5. meg  |  18 novembro, 2008 às 9:41 pm

    Romério,
    Não sendo um texto virgem para mim, é sempre um conforto ler essas palavras de Tião Nunes, que te são dedicadas, assim como os poemas.
    Principalmente quando como agora, que começo a sentir saudades tuas lá no V&P.

    Um beijo
    meg

    Responder
  • 6. Luciane Fiuza  |  18 novembro, 2008 às 11:52 pm

    Olá, Romério. Obrigada pela visita e pelo comentário. Não liga pra Cris, ela adora fazer uma molecagem – já fui lá no Morenocris conferir a “arte” dela. É por isso que de vez em quando a chamo de Menina Cris.. srsrsr
    Abs!
    Luciane.
    P.S.: gostei do seu blog coloquei um link lá no “Lu”.

    Responder
  • 7. Romério Rômulo  |  19 novembro, 2008 às 12:19 pm

    silas:
    muito bom que você apareceu.os contos são inusitados.
    falarei com você por e-mail.
    um grande abraço.
    romério

    Responder
  • 8. Romério Rômulo  |  19 novembro, 2008 às 12:21 pm

    meg:
    eu vou ao v&p sempre que convocado.estive lá agora.
    um beijo.
    romério

    Responder
  • 9. Romério Rômulo  |  19 novembro, 2008 às 12:24 pm

    luciane:
    a cris é pura molecagem.obrigado pela vinda.
    um abraço.
    romério

    Responder
  • 10. Romério Rômulo  |  19 novembro, 2008 às 12:34 pm

    lu:
    quero agradecer o link.
    romério

    Responder
  • 11. Ane Brasil  |  19 novembro, 2008 às 2:39 pm

    intressante essas considerações sobre os rumos da poesia… os concretistas, ded fato, facilitaram a vida de leitores como eu, que nunca gostaram da métrica.
    Hei, o poema é teu? gostei!
    Sorte e saúde pra todos

    Responder
  • 12. Romério Rômulo  |  19 novembro, 2008 às 2:51 pm

    ane:
    o tião nunes esteve enfiado em vários desses movimentos,sempre
    com um diapasão próprio,o que fez dele um poeta único no brasil.
    quanto aos poemas,são todos meus,com umas poucas exceções
    citadas.
    obrigado pela sua presença.apareça outras vezes.
    um abraço.
    romério

    Responder
  • 13. Pedro Lobato  |  20 novembro, 2008 às 2:37 pm

    Bom demais, Romério!

    Responder
  • 14. Romério Rômulo  |  20 novembro, 2008 às 4:58 pm

    pedro:
    você conhece bem o tião.o homem é pra lá de embasado.
    romério

    Responder

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