Sangue espesso, vida espessa, rio espesso

11 julho, 2008 at 12:01 am 2 comentários

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala
Como um cão vivo
dentro de um bolso
Como um cão vivo
Debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

João Cabral de Melo Neto

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