dos habitantes internos

7 junho, 2008 at 6:48 pm Deixe um comentário

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustoso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo salvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e ai. Aviso tambem que nao se deve temer seu relinchar: A gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

Clarice Lispector

 

tenho certeza de que a clarice foi habitada por um cavalo selvagem.

minha imagem é de um cão perdido. nem mais, nem menos. nunca me vi capaz de conter anjos, sequer tortos. que me desculpe o drummond : sou “gauche” vital. sem comunicação.

há umas profundezas que namoro numa paixão incontida.

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Entry filed under: Avulsos.

ouro preto, minha pleno na tua boca

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