Wilmar Silva entrevista RR

3 junho, 2008 at 11:08 pm Deixe um comentário

(Retirado do site Germina Literatura)

Wilmar Silva — Ao final da origem, o que guarda de Felixlândia na memória da infância?

Romério Rômulo — Por seis meses meus pais moraram em Felixlândia e lá eu nasci. Assim, Felixlândia não chega a ser um retrato na parede. Mas a vida deles, e por conseqüência a minha, na infância, foi sempre pelo cerrado, nas proximidades do Rio São Francisco. Daí, terra, cerrado e rio são meus elementos vitais. Mesmo aquela planura monótona me toca. E fui descobrir, mais tarde, que a pouca atratividade do cerrado é só aparente. Você descobre, se dentro dele, belezas intensas. Uma das flores mais bonitas que conheço é a do pequizeiro. E quem esperaria que aquela árvore sugerisse isso? (não me pergunte se sou um pequizeiro — espinhos e mais espinhos na fruta — com algumas flores!)

WS — Errante dos cerrados nas palavras e, depois, nas pedras entre as montanhas de Vila Rica, como foi a sua viagem de chegada a Ouro Preto

RR — Cheguei a Vila Rica pra estudar. Foi um impacto. Pra quem estava acostumado com outros ares, outros desenhos de paisagem, embora já não somente o cerrado, o adjetivo só pode ser um: estranho. Sabe aquela estranheza que você não consegue saber como chega, mas chega, e você tem de superar? Foi assim.


WS — Bucólica e árida, Ouro Preto é uma Pasárgada ou é um distrito esquecido depois da poeira, com uma igreja sem a musa e nem o pastor Manuel Inácio da Silva Alvarenga?

RR — Pasárgada não é, pois, tem uma beleza em rabutalhos (e, por sinal, não sou, nem pretendo ser, amigo do rei). Embora patrimônio mundial, Ouro Preto está dilacerada, naquela dialética reconhecimento — desmontagem, elementos que caminham juntos. Trabalho sempre com a idéia de que a desmontagem de Ouro Preto está na sua origem. A vila surge de um desmantelamento na busca do ouro. Ouro a qualquer custo pressupõe uma ruptura da paisagem original. Meus poemas sobre as pontes de Ouro Preto, já publicados em espaços da internet, mostram essa visão. Distrito esquecido com uma igreja, Ouro Preto foi por muito tempo. E já sem Marília, embora tudo indique que as Marílias foram muitas.

WS — Pudesse rasgar os cabelos e partir em busca de uma Creta, que autores você puxaria para suportar as tardes de ondas sem cricri de grilos?

RR — Certamente puxaria muitos autores. Para dar uma idéia, carrego sempre em minha bagagem as obras completas do João Cabral, do Augusto dos Anjos e os sonetos do Camões. Mas veja, Wilmar, não creio que eu rasgaria os cabelos. Eles são a minha fúria.

WS — O fôlego de selvagem em Matéria Bruta revela um criador em estado de choque com a linguagem, e com a poesia enquanto língua em estado de léxico político. Escrever poesia é preservar o sangue azul de mestiço ou entrar na metástase de um sangue coca-cola?

RR — Esta metástase do sangue coca-cola é uma deformação não percebida ou, se percebida, dada como não existente. O trabalho/luta, seja com a linguagem em seu sentido puro, seja com a expressão cotidiana da mesma, há que ser político. Aí é que o sangue azul do mestiço se mostra.

WS — Apesar de viver na aldeia de árvores e pedras, Sebastião Nunes afirma que “estamos diante de um poeta novo e original”. O que partilha Matéria Bruta de seus títulos/nomes anteriores e de seus contemporâneos em formação?

RR — Matéria Bruta tem muito dos meus contemporâneos de formação. O próprio Tião Nunes contribuiu com sua postura clássica do “poema sem palavra”. Quanto aos títulos anteriores, desde o segundo, Anjo Tardio, algo já vinha se construindo para a “chegada” à linguagem atual, do meu ponto de vista, cheia de rupturas sintáticas e léxicas. Entendo que em Bené para Flauta e Murilo isto já está bastante explícito.

WS — Seu nome, Romério Rômulo, com erres contendo um rio e um mulo: de onde vem, quem são os pais que formam a árvore genealógica do poeta de Tempo Quando?

RR — O “mulo” eu já tinha percebido; o “rio”, não. Minha árvore genealógica tem por base, nos séculos 18 e 19, a Joaquina do Pompéu, a Sinhá Braba, minha avó em sexto grau. A mistura racial é ampla: belga, espanhol, italiano e, quando no Brasil, certamente negro, índio e português. Há pouco, fui ver que Romério, nome escolhido por minha mãe, amante das aliterações, é presente na Itália. Carrego comigo também um sentimento, baseado na observação, de ter algum sangue cigano, pelo lado de meu pai. Nos meus primeiros meses de vida, fui alimentado com leite de égua. Como sou considerado um brigador, este “mulo” pode significar algo mais. Não é uma abordagem interessante, Wilmar?

WS — Sua casa em Ouro Preto mais lembra um museu aberto, onde Carlos Scliar tem agora em você a preservação de um artista. Como aconteceu esse encontro para salvar o amigo plástico do olimpo?

RR — Meu encontro com o Carlos Scliar teve bases políticas. Fui procurá-lo, num certo momento, para buscar recursos para o PCB. Daí criamos uma amizade tão forte que fui morar na sua casa em Ouro Preto, onde ele passava uns 3 meses do ano. E o amigo plástico continua vivo pela sua obra, no sentido mais amplo que isso possa ter.

WS— Poeta, sim, e professor de Economia Política da UFOP: dois rios que são um rio ou dois rios que são dois rios?

RR — Poeta e professor de Economia Política pra mim são um mesmo rio, que sou eu. Agora, pelo lado da instituição “universidade” e dos partícipes do processo (professores, principalmente) o poeta soa quase sempre como uma deturpação. Parece absurdo isso, numa universidade, mas é plenamente verdadeiro. Argumentam que meus livros publicados não pertencem à minha área de trabalho. Devo dar atenção a gente que pensa assim?

WS — Também editor do proibido e esgotado Elixir do Pajé: esse Bernardo Guimarães é diferente dos Guimaraens da poesia e do Guimarães dos romances conhecidos?

RR — O Bernardo do Elixir é, certamente, uma face do Bernardo da Escrava Isaura, de O Seminarista e mesmo de outros poemas. Mas que ele dá uma tacada inesperada e pouco aceita pela família ouropretana, isto ele dá!

WS — Ainda na barriga da mãe, mãe e pai conversam com o filhofilha para sentir as suas vozes, e depois, ao nascer, pai, mãe e filho ou filha, entram em estado de dicionário, para se comunicarem e para filho ou filha aprender a língua. Afinal, Romério, o poeta, é um menino na barra do vestido ou uma menina no botão do zíper?

RR — Wilmar, não tenho dúvidas de que continuamos nas barras dos vestidos e nos botões dos zíperes, meninos e meninas.

WS — Aspectos de antropologia encerram uma geopoética em Romério Rômulo, ou a existência é “uma viagem ao desconhecido” (Maiakovski) da poesia?

RR — Há “uma viagem ao desconhecido” no sentido de não se conhecer a chegada, mas há uma geopolítica, como você chama, que está atracada em cada um de nós.

WS — Partir em busca de uma poesia é o mesmo que partir em busca de um planalto, ou o cerrado se tornou um campo urbano de batalhas perdidas no topo do mundo de esquerda?

RR — Não sou chegado a aceitar “batalhas perdidas”. Então, “vou pro pau”. Se chegarei ao planalto ou ao topo da montanha, aí está o não sabido. Vale o embate. E aí me garanto.

WS — Sabia, Romério, que o silêncio de muitos poetas me assusta mais que o barulho de alguns? Mas é possível um jornalismo de cultura se a democracia de mentira colocou na cabeça do poeta a mentira da liberdade?

RR — Wilmar, o Oscar Niemeyer já escreveu que a arte cada dia mais é “relações públicas”. E os poetas (muitos entraram no jogo) que se esclareçam sobre isso. Suas observações “democracia de mentira” e “mentira da liberdade”, com as quais concordo, me sugerem o embate da construção e não algo definido e definitivo. E o jornalismo de cultura fica pendurado, na quase totalidade dos casos, nos interesses que conhecemos do capitalismo. Não inventaram uma certa “indústria cultural”? Quem se presta a tal coisa que se abrace com ela!

WS — Invés de remeter livros pelos correios, o que é preciso para invadir as pessoas com poemas caídos invisíveis ao vento pela cabeça aos corações das gentes?

RR — Wilmar, caminhamos no mesmo barco (isso mesmo, caminhamos!) e se você conseguir trabalhar essa coisa, me fale. Talvez o Shakespeare tenha tramado por aí.

WS — O que anda escrevendo Romério Rômulo quando avião mata menos que carros e abandonam trem de ferro na ferrugem dos dormentes?

RR — Ando escrevendo sobre meus amigos, como sempre. Umas coisas que se derramam sobre mim, me ajudam a trabalhar outras questões. Na sua pergunta, a “ferrugem dos dormentes” me sugere alguma coisa. Meus embates com o mundo e a linguagem permanecem como centro.

WS — Vamos, por favor: realmente é possível uma poesia verdade nascida da vida para redescobrir que Jesus Cristo salvou o homem do pecado, ou não acredita na existência do pano do santo sudário?

RR — Que história é essa de santo sudário?

WS — E com Madalena, você dormiria com ela por uma noite para entender que o homem tem uma pedra fálica, ou arremessaria contra Geni?

RR — Wilmar, suas ironias são comprometedoras. Não quero envolvimentos com Madalena, pelo obscuro de suas relações. Agora, jogar pedra na Geni, não!

WS — Tem poetas que matam os seus poemas quando falam os seus poemas, e você, Romério Rômulo, o que pensa sobre a importância ou não importância da poesia sonora?

RR — Gosto da poesia falada e eu mesmo, comigo e minha mulher, leio meus textos. Mas a fala pública exige outra inflexão, outro preparo. Aí vem a morte de que você fala. Mas não sou contra que se agreguem instrumentos vários à poesia, o que, por sinal, nem é recente.

WS — Se sete são os pecados capitais, puxando o gatilho de seu poema “Sete perguntas a Manuel de Barros”, o que pensa sobre a perdição da angústia da influência, ou a influência para se perder nos buracos de uma Atlântida?

RR — Eu nunca padeci desta “angústia da influência”, até porque nenhum de nós começou do zero. Começamos a partir de tudo o que se fez e fazemos a partir disso. E como você falou dos sete pecados capitais, lembrando as 7 perguntas a Manoel de Barros, eu posso produzir 10 perguntas ou textos ao Augusto dos Anjos, para termos os 10 pecados mortais. Por sinal, meu próximo livro a ser publicado é Per augusto & machina, Augusto dos Anjos retrabalhado ou revisitado. Tenho uma identificação especial com ele.

WS — Comprados Pedras no Caminho e Anjo Tardio na acabada livraria na lateral do Palácio das Artes nos anos 80, quando perquiri Romério Rômulo — que conheci 20 anos depois —, que geografia há entre 1979, de Pedras no Caminho, e 2006, de Matéria Bruta, quase 30 anos passados?

RR — O percurso geográfico foi forte. No início, com Pedras no Caminho, eu pensava ser um maldito. Creio que a maior consciência sobre a impossibilidade de um “baudelaire sertanejo” me conduziu à musculatura que me diz respeito, como no trabalho Matéria Bruta.

WS — Parceiro inseparável de Sebastião Nunes nas edições de seus livros realizadas por ele, viver em Ouro Preto seria o mesmo que viver em Sabará ou a terceira margem não é uma cidade-satélite de Belo Horizonte?

RR — Sempre digo que o Tião Nunes coloca alma nos meus livros e mesmo em outras edições que já trabalhamos juntos. Agora, viver em Ouro Preto é bem diferente de viver em Sabará. E nunca falamos de uma terceira margem do rio. Mas é bom lembrar que os dois viemos do cerrado.

WS — Afetivo por pessoas, “quantos quintos dos infernos” no verso de um dos poemas do livro Amigos & Amigos: é verdade, Romério, que a amizade é uma paixão exacerbada de amor?

RR — Numa pergunta anterior, já respondi que continuo escrevendo sobre os meus amigos. Tenho um livro a ser publicado: Carlos, Carlos e Manuel (Carlos Scliar, Luís Carlos Prestes e Manuelzão), onde só falta terminar o poema do Prestes. E o poema do Scliar tem o titulo de “Canto para amar Carlos Scliar”. Que a amizade é uma paixão exacerbada eu não tenho dúvidas. E olha que a paixão já é exacerbada. Gosto de dizer que a paixão “é um rio só cachoeira”.

WS — Meu admirável amigo Rainer Maria Rilke afirma que é preciso escrever em estado de cio. Em Matéria Bruta, no primeiro verso da página 104, você afirma “vivo em estado de coisa”. A poesia é “palavra-coisa” (Sartre) ou “poetry is to inspire” (Dylan)?

RR — Cada um dos citados tem lá suas razões: coisa, cio, inspiração, dão suporte à construção poética. Sugiro que seu admirável amigo Rilke vá à citada página 104 e veja: “sobre pisar a alma selvagem / requeiro meu delírio”.

WS — O que é inspiração para João Cabral de Melo Neto, ou melhor, para Romério Rômulo?

RR — Pra mim a inspiração é uma disposição afetivo-corporal de trabalhar. No nosso caso, o texto. E fica dito.

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