Posts filed under ‘Tempo Quando’
rasos, 2
1.
é-lhe, desmedido.como que o cru
dos cantos. em ponta, sumidouros. suor lhe
faz a testa. um raio cerca margens. as
costas, um objeto do mundo. sempre em
caminho. trilhos lhes sobre. o rubi
do olho ferve. rútilo. sempres é um tempo
forjado. cada, no olho, tempo. mais que
por sobre, saber.
vido no riso da luz.
2.
caçava manhã como fôra outra. inda des-
vanecia tempos. um trôpego de borboleta
farfala. cisco de vento. regaço de dente faz
riso. uma alma leve no candorado da noite.
3.
tinha aspas na vida e no tempo. um
dobro lhe falava.
4.
menina marta não recasa. colo segura,
passarinho solta. ontem que revive
é halo de fruta. outros mais que ontem.
sabidências.
5.
perfil dalata. corre a manga.
6.
som de caminho reto.
rasos, 1
1.
éramos de dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos de
mundo, tudo. alargado coração em corpo.
similares das margens.
2.
trago margens de rios. peixes me lambem.
como visgo, vejo coração. cabelo de
retardo. a caminhada é sol que rumino.
a solidão pronta, jaça sem jaça.
3.
ontem, o través me trouxe. deixou-me
mudo, como que sangue. fiz-me em folha.
4.
anteontens quiseram mais. restaram
corpos em sobre. assins fazem.
inventor de resto
“sebastião g. foi cagador de moitas.
alevantino de bandeiras. pavilhão erguido
em clubes, cerca de trem doido. ora foi.
maldade ampla e reticência surda.”
tempo quando
a madrugada no capim
traçamos, o pai e eu,
em trilhos no cerrado.
à frente, ele rasga.
piso-lhe o passo.
cancela primeira vai.
olhamos lados que vacas
estercam com seus corpos.
corpo bovino é luz
de sentir, se não de se ver.
o pai vê atos nos rastros:
se vinda, ida, tempo.
cancela segunda vai.
canto, curral, bezerros misturam tetas.
esguichos arrabaldes, espumas
pavoneiam sua herança do mar:
se não há bater nas pedras
há som de balde, picado.
a peia garante calma.
o laço estanca brabezas.
o mar é brabo tamanho
porque não se viu sertanejo.
cancela do mundo vai.
corpos multiplicam o avesso de ausências
as folhas sobram, calam, rangem, cobrem.
mais gargalham se topos reverberam.
corpos dos homens pisam pelos tempos
o seu caminho pálido em ausência.
treliças, mãos, tão mornas, acalantos
provam, sutis, os ritmos da noite
que sabem ser o múltiplo do desejo.
corpos arrebatam tempestades.
uma morte dos tempos
1.
de belga sou pedaço.
e espanhol, índio mostardo.
inácios me baixaram barranco,
joaquinas me trouxeram húmus.
meu cerrado do olho
vasta gados,
uns lençóis de linho em cada mão.
pinicos foram hino
lavrado.
– meu sobrenome cavalo, um mar de feras.
2.
quando baixa a carabina
de palavras, fico solto das noites.
chapéu é forma de dizer sobrâncias do conhecido.
não me saberem pode ser defesa.
- sombras são defesas da morte. -
vó e mãe contaram-me um gado urucuia
de olhar torto e saudades: tudo morto.
os garimpos do avô trouxeram pedras
que ainda piso.
quando sou pedra e argila?
– esgares de rio no meu olho.
amplidão
loucura é ver destroços ampliados.
anjos caídos, terra que se passa.
se anjo e homem revestem-se do medo
como encontrar a vida num só corpo?
é amplo o mundo, traduzir ausência
pode ser mais que estar qualquer de lado.
um outro ver, seu olho, esta morada
de viagens decididas pela noite
é tão mais ver o sono retalhado
que um qualquer corpo amplia madrugada.
ver o cerrado do peito ser tamanho
que assustar decide mais que ser.
o amplo do meu berro é traduzir-se
sem renegar esta amplidão que surge.
nos corpos, a noite
ver também pode estar nesta ternura.
vestais e corpos chegam, apropriados
do musgo, do azul, daquela noite.
é verde ser silêncio, o quarto morto
de paisagem insone
refulge sobre nós o que nos sobra.
que ver aqui, se o arco, este objeto
fremente de recantos e verdades
pode atar a noite sobre nós?
(reticências)
meu outro verdejado pela noite
sabia mais do corpo que é solene.
trazia nas gavetas da memória
um astro rugidor de tempestades.
saber os vidros que lampejam a pele
é como ser manhã nos horizontes,
é retraçar desvios deste tempo,
é repetir arquejos pela alma.
pisar os calos das ausências, tanto
que mais não sobre tormento e mordedura.
a morte, nas ruas, tão fazida quanto,
há de tornar reticências estes corpos.
desbravamento II
vou rebentar as hastes dos caminhos
pisar o pulso brabo das tormentas.
cidade âmago de vida
não há tremido que a manhã não caiba.
é indolor o campo, vem dos rasos
o que nos cerca, mudos, tão insones.
o beco que resvala em nossa mão
tem um tamanho, que viver-lhe a entranha
pode ser a nascente deste outro.
estas cidades mudam de caminho.
tantas são elas que rever seu corpo
é mais criar o ritmo da espera.
outras nos chegam, mais, tamanha amada,
que sobre nós, aqui, sobra o relento.
(como se nas ruas do tempo)
a serra dos seus corpos: chuva, pedra e vento.
seus pedaços podem brandir cascalhos e diamantes.
há rasgos de homens, nas baixadas,
que lhes carregam os corpos.
lambidos seus canteiros, sobra-lhes mistério.
cancela do mundo
venho de longe
venho de léguas
sou de botas largas, sertão seco,
de couro rasgado a músculo teso.
meu rosto, largo
das terras que passei.
meu olho, múltiplo
de atalhos e pinguelas.
o mundo é a pátria.
quebrada paz de ouro preto
scliar:
arder em ranço a noite de ouro
preto. paz quebrada de cansaço;
um canto rende-se no canto: vesgo
a vesgo. caso fôra, por que mais?
quando bichos hão de lavrar a
cidade? ela escalpela e mata, fuga
das gentes. pedras pisam corpos
que lhes pisam. nesga de igreja lhe
requebra o olho. arcos rendem
nossa ilusão.
rompida a cal da terra, esta nos faz
um gomo massacrado.
tua ausência solta
tua face é tanta e tão ausente
me cala o corpo agudo em tal instante.
ser a carne do corpo, ser o corpo
ser a carne do corpo, ser o corpo
atrium de quantas almas. ser
o resultado do anúncio das marés,
ser o mais manhã desta manhã.
entre outros, carimbar todos os muros
com a palavra chave, intumescida
de sentido, quando os homens reverberam
sua carne na noite tão aguda.
a carne do homem pode mais que o homem
se lhe for dádiva do tempo. pelo corpo
pode sangrar um soluço só retido
nas multidões que antecipam o tempo.
se o mundo ensandecido sobrar, louco,
figuras vão lhe trazer piedades.
ora, só facas sabem-lhe a metade
do corpo recurvado de poesia.
cicatrizes lhe vão falar por sobre
a miséria dos tempos. tão agudos
os corpos hão de vir mais do que todos
trazer-nos sua última palavra.
como o pai tive martelo
falo linguagem
do povo sertanejo:
inté, isturdia, trabanda
me são de família.
avô zico
sou manso de brabezas. advindo.
conto o nascido na precisão do cerrado.
certo, dirás: falências. que não. vô zico
foi anunciado nos garimbos. removeu
caminhos de água. tentou se recompor
com diamantes. daqui não deu. risco
em cedro e pompéu. de seis fazendas
sobraram-lhe tesouros. de corpo interno.
trago margens de rios
eu,
que sempre namorei fantasmas
só hoje lembro.
marchei por terras planas:
lama e poeira, essência.
por rebeldia, montanhoso,
nervo íngreme.
sangue vulcânico do passado passado.
abismos da memória me teceram
a pele.
anteontem quiseram mais
ontem, o través me trouxe. deixou-me
mudo, como que sangue. fiz-me em folha.
scliar:
te trago relatos. poucos, de saber.
mas há coisas incomodantes.
ora são bichos vagos no peito.
bichos de perfuração, por rumo de
onde, ora são censores de mão
única e múltipla.
pervagueio, censores obstinam
verdades. sem mais.
chego a ruminar, de dentes. dando
cansaço por idéia.
sobra-nos o mundo.
por abraço o
r.r.
rasos
1.
éramos de dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos de
mundo, tudo. alargado coração em corpo.
similares das margens.
2.
trago margens de rio. peixes me lambem.
como visgo, vejo coração. cabelo de
retardo. a caminhada é sol que rumino.
a solidão pronta, jaça sem jaça.
saber o corpo
veja um contorno. você o percebe
corpo? faça um cruzamento de
luzes que ele se embala sem ruído.
em carinho, fico.
inviés
nascer agora é pois tanta manhã
que resfolego o vulto que me chega.
chego a trazer o plano sonolento
da tua mão agora em minha mão.
me desfazer pode ser ato mudo
de uma mudez tamanha realizada.
pode ser outro, agora, este caminho.
similares das margens
éramos dois. cada um no seu cada.
rio de rio que lhe se desfaz. amplos
de mundo, tudo. alargado coração em corpo.
sobram-me tamanhos
poder ser tudo, menos que ser louco
a carregar destroços pelo tempo.
atar o riso na cara, morder ranços
e ter no peito a véspera do açoite.
acaso ser um outro, em entretanto
fazer a nuvem reter seus continentes.
tanta é a morte que vivo sou tamanho.
reverso
o avesso é tão remédio como a noite
que busca luz num fundo de reveses.
outros seres, metástases do tempo
soluçam abrangentes, nossas vozes.
como se fossem anos, por mais luzes
que os avessos dos corpos se contorcem
rever o templo do homem, retaguarda
dos bichos que retorcem sua boca/
outro é viés de tudo, epicentro
do canto interno, pulso, um outro avesso
que retomado nos diz saber ser outro
se tanta luz lhe faz rever os dias.
pleno na tua boca
teu braço pode ser tamanho corpo
que se refaz na trânsita morada.
repiques tão mais breves, reticentes,
percorrem minha mansa imensidão.
teu trato é mais reter a tua ausência
é ver a tua ordem repetida
no braço e pulso de tua veia ardente.
mais, nossos corpos cindem-se em manhã
na verve de tua pele que me chega.
tamanhos são tamanhos, só me sinto
no pleno ampliar da tua boca.
podem ser atos nossos breves sonos
se nossos olhos se cobrem das ausências.
onipresença
se tua ausência solta se ativer
ao úmido canto de alguma ave,
em relatar a anêmica distância,
mais que atiçar o nervo teu, refeito,
mais que atirar a névoa no teu colo,
é me dizer em ti, íntimo instante.
tua face que é tanta e tão ausente
me cala o corpo agudo em tal instante.
