Posts filed under ‘Per Augusto & Machina’

louco,cimentado

o meu cabelo é louco, cimentado
por cabedais em tudo transparentes.
carrego umas vogais de acessório
pra desditar poemas de indulgência.

o beijo, amigo, é a véspera da fome
que nos percorre: josés, joões, sem nome
sem consoantes uns, consonantados
outros. bêbados, invertebrados

da sanha do mundo. ruidosos calos
nas mãos de enxadas e assobios
suas visões são uns caudais de rios
que regam o mundo todo de abalos.

numa aparência louçã, insandecida
vou rebelar a noite de vestais
nuns sobremodos de maus modos tais
que até a morte vai se ver na vida!

(louco,cimentado)

Per Augusto & Machina

7 janeiro, 2010 at 1:42 pm 20 comentários

arrancar da tua nuca

eu tenho que arrancar da tua nuca
a vaga decisão de ser meu corpo
o elo de teu ventre com a terra.

devo extirpar o gesto adquirido
num, por somenos, ato reticente
de ver distância de mim ser teu intento.

quando as valas mostrarem nosso rumo
quando as formigas resvalarem atos
de um só ser em nós se validar

vou te mostrar a minha mão candente
meu corpo todo ele enluarado
e o meu dente podre de manhã.

há de sobrar de nós-o quê? –só torpes
rasgos de vento no olho do tufão.

a pura pedra me diz: quando fui homem?

(arrancar da tua nuca)

[Per Augusto & Machina]

14 dezembro, 2009 at 11:36 am 10 comentários

onde o homem amanhece

o torto da manhã carrega um osso
que é esqueleto do dia de amanhã.
seu prazo é inerte: ronda um sol
por eixo da terra que nem sabe.

cada homem delega-se instrumento
de tudo isto em seu relógio louco
que mostra a manhã arrependida
de ser a outra depois, e mais, depois.

cada fala se sabe compreendida
no tempo desta luz e desta treva.
e o caminhar de escuros entre claros
define a substância dos caminhos.

estes caminhos são por demais ossos
de esqueletos, múltiplos, corpóreos,
estantes desta flor chamada gente,
martelo deste prego que arremata.

por seu intento e sabe-se o quê
os pisos rasos, fundos, ancestrais,
onde o homem amanhece noite
e sua claridade vai traduzir morte.

fosse eu o deus das madrugadas!

22 outubro, 2009 at 8:55 am 21 comentários

no cosmopolitismo das moneras

desta homogeneidade indefinida
nasce a maçã, o polvo virulento.
corto na tarde o rasgo da notícia
que chega, anquilosada, feito vento.

19 outubro, 2009 at 5:53 pm 20 comentários


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