Posts filed under 'Outros autores'

(mau) humor e poesia

quero destacar a matéria de “o globo” de hoje sobre o escritor, ex-poeta e dono da estética da provocaçao, sebastião nunes. no caderno prosa & verso.

Do Prosa & Verso, do Globo

Verve iconoclasta

Três lançamentos jogam luz sobre a obra do mineiro Sebastião Nunes, que, aos 70 anos, é cultuado por críticos e escritores

Ele talvez seja o melhor escritor brasileiro do qual você nunca ouviu falar. O mineiro Sebastião Nunes comemorou no mês passado 70 anos de vida e 40 de uma carreira literária da qual poucos tomaram conhecimento, mas que lhe rendeu admiradores como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes e Antonio Candido.

Os três estão entre os leitores fiéis que ao longo dos anos remeteram cheques à casa do autor, em Sabará, para subvencionar as tiragens de poucas centenas de exemplares em que Nunes publicou a maioria das suas obras, combinações inclassificáveis (”já fui acusado até de concretista e de pornográfico”, ironiza) de texto e imagem vendidas pelo correio e editadas em formatos incomuns (uma delas vinha acomodada num pequeno caixão).

Com esses meios modestos de divulgação, ele construiu sua reputação dentro de um círculo reduzido de leitores, do qual fazem parte críticos como Silviano Santiago e Flora Süssekind, e escritores como Sérgio Sant’Anna e Joca Reiners Terron.

Desde a estreia em 1968 com “Última carta da América”, o gosto pela sátira e o tom cáustico lhe valeram também alguns contratempos, com leitores talvez menos esclarecidos, como o governo de Minas Gerais (que recolheu um jornal estatal onde circulava o poema “As rampas do palácio”, reproduzido na página 2). Donos de gráficas se recusaram a publicar um de seus poemas por causa de palavrões.

Três lançamentos recentes permitem que a obra de Sebastião Nunes seja conhecida além do meio em que hoje circula. A editora paulista Altana reeditou no mês passado dois livros dele, “Decálogo da classe média” e “Somos todos assassinos”.

Já a UFMG acaba de mandar para as livrarias “Sebastião Nunes”, de Fabrício Marques, autor de uma tese de doutorado sobre Nunes defendida na UFMG. O livro reúne um estudo crítico, correspondência, entrevistas, um inédito e uma pequena antologia.

2 comments 19 Janeiro, 2009

Todo grande poeta tem sua voz e vez

Sebastião Nunes
A poesia é a mais difícil das artes da palavra. Difícil de escrever, difícil de ler e difícil de apreender. Existem poetas tão complexos que só toleram ser compreendidos depois de longo aprendizado e várias leituras. Mas existem poetas tão simples que entregam o ouro logo de cara. No primeiro caso, temos Augusto de Campos, cuja poesia até hoje engasga boa parte dos leitores, cultos ou não. No segundo, temos Manuel Bandeira, dono de uma simplicidade maliciosa, que se deixa entender por qualquer leitor medianamente cultivado.

Essa gangorra vem balançando ao longo de toda a história da poesia, antiga ou moderna, como um pêndulo de movimentos aleatórios e oscilações imprevisíveis. Existem poetas ótimos, bons e ruins em ambas as tendências, sendo que a maioria dos ruins se perpetua atolada no meio do caminho, por falta de coragem, ousadia e – pior – de cultura.

Na segunda metade do século 20 tivemos, no Brasil, vários exemplos maiores dessas tendências, sem que um superasse o outro, já que o grande poeta é insuperável, incomparável e imensurável. Darei alguns exemplos brevíssimos.

Vejamos Adélia Prado, bizarra senhora que, de repente – não mais que de repente –, soltou os cachorros e botou na rua sua lírica confessional, que atoleimou os tolos e sublimou os degustadores da poesia rica, nova, original.

Quase simultaneamente surgiram Glauco Mattoso e Paulo Leminski. Frutos da generosa árvore concretista, não se tornaram epígonos. Excelentes poetas, foram capazes de aprender com os mestres e seguir em frente, abrindo suas próprias trilhas nos espinheiros da linguagem.

Antes deles, mas muito antes mesmo, o pantaneiro Manoel de Barros extraía proezas do lamaçal verbal, encantamentos das folhagens da língua, proezas e encantamentos que só foram percebidos muitos anos depois, com o poeta já velhusco.

Todos marcaram sua época, pois foram, e são, poetas referenciais. Pairam acima de correntes e tendências. Fundaram-se a si mesmos.

Pois bem. Eis que agora, depois de palmilhar longamente as estradas tortuosas da poesia, experimentando caminhos, atalhos, veredas e trilhas, em livros que indicavam o rumo mas não desvelavam segredos, Romério Rômulo desencanta de vez com Matéria Bruta, um livro que tem a grandeza e a maturidade dos poetas maiores.

Estamos diante de um poeta novo e original, autor de uma poesia radiosa como as primeiras manhãs do mundo, como toda poética fundadora. Mas gostaria de alertar: leiam devagar, lenta e pausadamente. Sintam os versos e os ritmos como eles se oferecerem. Porque estamos, perdoem se insisto, conhecendo a técnica sofisticada de um poeta inaugural e, por isso, na presença de um poeta que se tornou grande pela busca pessoal, individual, solitária. E que chegou lá, oscilando perigosamente no fio da navalha da linguagem, lá onde ela, a autêntica poesia, sopra quando quer, e só quando quer.

Como aperitivo seguem dois poemas escolhidos ao acaso, já que o nível nunca baixa e o tom é sempre alto.

a chuva que me habita não é chuva,
é um quadrado oblongo de facetas.
a quina do meu lábio, cada fresta
há de conter o rasgo destas almas.

as almas que te habitam são tão seres
que possam mergulhar na tua alma?
acaso, se carregas, tens um olho
que sabe a múltipla face do meu rosto?

tentar pode ser mais, e se me levas
te trago incorporada, último dia.
(adentro o verde cinza da manhã)

o tumulto do corpo pode ausências.
calar tem por demais, arrefecido
instante da manhã chamado vento.
uns mistérios, dizer o mais que sono
sem a palavra livre revelada.

quando uma carne concebe, intimamente,
uma outra carne rasura seu instante
mais breve de pedra. e saber
aquilatar é tudo, face o tempo.

que outros mais dizer irão, somente,
sabedorias se nem cabe a rouca
lamúria que no lábio sempre espera
pelo espaço de só ser lamúria.

(o corpo pode ausências)

14 comments 17 Novembro, 2008

O luto no Sertão

Pelo sertão não se tem como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não é de vestir,
é de nascer com, luto nato.

Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.

E mesmo o urubu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no sertão usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.

João Cabral de Melo Neto

Add comment 25 Agosto, 2008

Oh! Que estúpido fui!

Quebrei minha panelinha literária
no dia em que nasci.
Voaram cacas, caquinhos e cagões
fedendo como nunca vi.

Desde então sou poeta solitário
corajoso, forte e temerário
orgulhoso pra caralho
mas no borralho.

Quem me empresta nova panelinha?
Quero que me puxem o saco.
Exijo ser chamado gênio.
Preciso cagar regras.

Ai que saudades de uma cagadinha
na minha literária panelinha.

Sebastião Nunes

8 comments 14 Julho, 2008

Sangue espesso, vida espessa, rio espesso

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala
Como um cão vivo
dentro de um bolso
Como um cão vivo
Debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

João Cabral de Melo Neto

2 comments 11 Julho, 2008

Patrimônio

Duas riquezas: Minas
e o vocábulo.

Ir de uma a outra, recolhendo
O fubá, o ferro, o substantivo, o som.

Numa, descansar de outra. Palavras
assumem código mineral.
Minérios musicalizam-se em vogais.
Pastor sentir-se: reses encantadas.

Carlos Drummond de Andrade

4 comments 3 Julho, 2008

reais como o astro-rei

” Romério,
Mas este é um carinho para um amigo que se sente de verdade!
Teu lado gratidão e um comentário feito poema. Muito bonito do Xico Santos. Vou verificar se tem blog… inevitável !
Beijo da… Ima Sumac “



Amigo,

queria tanto que o Sol explodindo em calor nesta manhã meio abandonada conseguisse explicar pro meu intelecto que a dna. Ima Sumac é real e não está nenhum pouquinho zombando da simplicidade do meu texto-carinho… (vírgulas causariam soluços).
Se ela for real vou empinar o nariz mais ainda… uns 7cm.
Rapaz, esse seu blog já inunda uma vontade de outro livro!
Bom dia!

Xico Santos

2 comments 21 Junho, 2008

a mão apurada de carlos scliar

Ferreira Gullar

Creio que foi Sartre quem disse que a morte completa a obra do artista, no sentido de que lhe põe o ponto final e com isso nos permite vê-la inteira: nada lhe será acrescentado e nada lhe falta, mesmo porque, se algo lhe falta essa falta é parte dela. Penso nisto, agora, no momento em que a notícia da morte de Carlos Scliar me leva a debruçar sobre o trabalho que ele realizou durante 60 anos de atividade artística. (mais…)

Add comment 19 Junho, 2008

Dos visitantes poéticos

Romério,

minha primeira visita já pega a fogueira acesa… labaredas solitárias cortando o azul da noite… pinhão na brasa, quentão na boca… o vento desmancha os cabelos dela, enquanto sorri aquele riso de outras festas… eu (criança), soltando “chinezinho”… enquanto a urgência me consome.

Teu sítio, minha festa!
Xico Santos

2 comments 17 Junho, 2008

acróstico da poetinha

B orboletas
E
A belhas
T êm
R isos
I guais
Z zzzzzzzz

Beatriz Nassif

13 comments 15 Junho, 2008

sangria

“Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavra que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”

Clarice Lispector

o desafio é escrever
neste nível.
beleza intensa,
densa,
amargurada.

nada é tudo,
tudo é nada.
pura água
clarice.

sangue esfolado
na veia.
teia de aranha.
fundo,
o poço é o mundo.

a pedra resvalada
no corpo
pisa o vazio.

2 comments 13 Junho, 2008

Bernardo Guimarães

a cronópios publicou “o elixir do pajé” do bernardo guimarães, edição do tião nunes e minha de 1988. escrevo a introdução. convido-os a dar uma caminhada por lá. o bernardo foi um porra-louca.

Elixir do Pajé, Edições DuBolso, Sabará, MG, 1988, Ilustração de Fausto Prats

Apresentação do próprio autor (do próprio autor?)

No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem dúvida, pode salvar do naufrágio do esquecimento poesias tão excelentes em seu gênero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por aí dispersos e raros, não podem garantir das injúrias do tempo.

A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele a sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com mão de mestre.

Estas poesias podem se chamar erótico-cômicas. Quando B.G. escrevia estes versos inimitáveis, sua musa estava de veia para fazer rir, e é sabido que para fazer rir são precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.

Estes versos não são dedicados às moças e aos mineiros. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas sérias, que os encarem pelo lado poético e cômico, sem ofensas da moralidade e nem tão pouco das consciências pudicas e delicadas.

Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando não têm o perfume da poesia; esta, porém, encontrará acesso e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no juízo será um florão de mais juntado à coroa de poeta que B.G. tem sabido conquistar pela força de seu gênio.

Ouro Preto, 7 de maio de 1875.

6 comments 9 Junho, 2008


Tópicos recentes

Feeds

 

Dezembro 2009
S T Q Q S S D
« Nov    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos

Categorias

Top Posts

Mais RR

Outras Vozes

RSS Fênix em Verso e Prosa

RSS Notas da Comunidade Verso e Prosa

RSS Blog da Comunidade Verso e Prosa

Meta