Posts filed under ‘Inéditos’

quero dizer que manuelzão foi boi – II

o texto é naufrágio e é silêncio.
quando da pedra salta-lhe uma cabra
seu dia contado vê-se rubro.
a pele vermelha do ar solta-se
em vigores. uma poesia carrega
sempre outra. cada grão avalia
o extrato como podre. querelas
são fontes de desejo. e os desejos,
noites.

preso dos olhos, manuel é cumieira.

1 maio, 2010 at 8:27 pm 4 comentários

abertura, 1 *

1. é louco ser solene.
é lúcido ser louco!

2. se tenho, como última morada
o som caleidoscópico da vida
carrego matrizes, almas sombreadas.

3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
surrado dos demônios, ímpio em desvario.

4. quando surgi de mim, fiquei varrido.
e meu estado de coisa correu solto!

5. qualquer ambigüidade tem um tônus
que corta toda a alma pelo avesso!

6. a dor fecunda das hostes:
vou retomar meus laços com a vida.

 

*Inédito – do livro “Per Augusto & Machina”, a ser lançado brevemente

18 junho, 2009 at 2:58 pm 21 comentários

louco, cimentado *

o meu cabelo é louco, cimentado
por cabedais em tudo transparentes.
carrego umas vogais de acessório
pra desditar poemas de indulgência.

o beijo, amigo, é a véspera da fome
que nos percorre: josés, joões, sem nome
sem consoantes uns, consonantados
outros. bêbados, invertebrados

da sanha do mundo. ruidosos calos
nas mãos de enxadas e assobios
suas visões são uns caudais de rios
que regam o mundo todo de abalos.

numa aparência louçã, insandecida
vou rebelar a noite de vestais
nuns sobremodos de maus modos tais
que até a morte vai se ver na vida!
 

* Do livro Per Augusto & Machina, a ser lançado brevemente

7 maio, 2009 at 9:40 am 30 comentários

pura pedra

meu poema seco,
rastro de sol e cerrado,
carrega uma moldura de ferro.
montanha e água,
meu poema seco
traça uns caminhos de rio.

os cavalos do poema
são trevas da poeira vivida,
do esgarçado dos dentes
em iscas do outro lado.

a manhã que encobre tudo
lambe, azeda, meu corpo de tormenta.

24 março, 2009 at 7:50 am 28 comentários

poeta e noite

fênix:
a partir das insônias, fiz.

poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam.
há um poeta assim, em cada canto,
no redemunho do espanto que revelam.

poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão.
os dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.

tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados.
ao percorrer as noites pelas frestas
poetas são destroços renegados.

15 fevereiro, 2009 at 6:27 pm 30 comentários

todo sertão é um caldo de tortura

o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.

26 janeiro, 2009 at 2:06 pm 29 comentários

para renata

eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã,fel em mim,
entope minhas veias.

quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.

22 janeiro, 2009 at 1:40 pm 31 comentários

uma bravura regenera a noite

de quantas nuvens se faz uma loucura?
é construída a mão que bate o prego?
as estações do corpo só revelam
o hábito eloqüente do delírio.
que nos corroa a pedra, o visgo louco
da agonia!
desmonte do tamanho, o extirpado dente,
gengiva em sangue são a mesma face
do hábito terrível de ser homem.
quanta eloqüência travada no meu olho!

13 janeiro, 2009 at 11:07 am 34 comentários

cândidos, um sopro

meu corpo traz uma equação de nuvem.
pobres resgatados, desmorados, osso e braço
rezam no ar de penitência suas águas.
proprietários do sobrado, pouco lhes resta.
de tempo, arreganham dentes de uma fome sólida.
ralos de feijão, seus corpos sabem o horizonte da terra.
escaldados, cândidos, um sopro.

11 janeiro, 2009 at 7:15 am 15 comentários

arrancar da tua nuca

eu tenho que arrancar da tua nuca
a vaga decisão de ser meu corpo
o elo de teu ventre com a terra.
devo extirpar o gesto adquirido
num, por somenos, ato reticente
de ver distância de mim ser teu intento.
quando as valas mostrarem nosso rumo
quando as formigas resvalarem atos
de um só ser em nós se validar
vou te mostrar a minha mão candente
meu corpo todo ele enluarado
e o meu dente podre de manhã.
há de sobrar de nós-o quê? –só torpes
rasgos de vento no olho do tufão.
a pura pedra me diz: quando fui homem?

10 janeiro, 2009 at 11:18 am 10 comentários

estas ruas, estas voltas soltas

minha ouro preto é feroz
como o corpo que se mata.
de luzes não reveladas
de astros não-todo-ditos
de falas secas na noite.
cidade de inconfidências
e revezes
ouro preto, esfarelada
de chuvas e mãos varadas
por turbulências e pragas.

(per augusto)

5 novembro, 2008 at 8:24 pm 23 comentários

ponte: contos

casa dos contos. ponte.
saída de cláudio pela vida
tangente, da escada, razão pura,
esquecida independência fraterna.

esconsos de affonsos, das vilas
que veneram o monarca da hora,
tangido pela força do vento

vazada em liberdade pela escada,
o corpo de cláudio é montanha!

(per augusto)

21 outubro, 2008 at 2:29 pm 12 comentários

mulher e ponte

marília. ponte, mulher.
mulher e ponte, ambas por gonzaga.
se disser que marília é aziaga
estou perdido em largos do horizonte.

vista de mim, marília, ensandecida,
estagnada em musa proibida,
pelo rigor da corte, gonzaga, se sabe,
nasceu dela, ela lhe pôs a vida.

quando gonzaga, em frutos d’além mar
outra marília viu, e dela fê-la prenha
se recordava, atroz, desta marília
que vila rica fez, e certo, venha

a fazê-la ancestral da lira louca
que gonzaga imprimiu, qual um pastor
de rebanhos, grosseiro relator
de todas as marílias que não viu.

gonzaga foi. marília não partiu!

(pontes: marília)

(per augusto)

14 outubro, 2008 at 4:00 pm 13 comentários

(pontes)

o ato de nascer em cada ponto
carrega uns navios, umas flores,
todos os atos, breves, só completam
o ano do seu turnos já rasgados.
quantos de nós se sabem nestes rios,
se o fino odor do mundo se deslava
no corpo ao nascer do próprio ato?

quando nascer é tanto, que se diga
de só nascer se ato completado
por força de saber-se o incompleto.

13 outubro, 2008 at 10:32 am 6 comentários

(brasil, em ouro preto, corte)

afastem-se os cordéis, arranquem-se os cordões.

a vilania sempre surge em ouropéis
nos arremates turvos, equações
rudimentares da vida, distorções
de falas, pedras, pragas e bordéis.

o dente, simulacro de uma voz
carrega sobre si as multidões.
e se elas se atrevem entre nós
é que carregam, por nós, certos senões.

as vozes aspergidas, sussurradas,
cabem e andam em puros borbotões,
vicejam e estarrecem madrugadas
entre novelas, estorvos e canhões.

(brasil, em ouro preto, corte)

(per augusto)

12 outubro, 2008 at 8:31 pm 2 comentários

cantiga de roda

(para mãe e pai encantados)

é uma cantiga só
de um poeta na estréia
nasceram bibi e dodó
as flores da paulicéia.

a mãe é mãe amorosa
o pai, violão, bandolim
bibi com a face da rosa
dodó com a cor do jasmim.

bibi, beatriz, abelha
dodó, de caymmi, dora
uma, na ponta da telha
outra, na pele da aurora.

7 setembro, 2008 at 4:19 pm 8 comentários

domingo

“porque amanhã é domingo” (l.n.)

porque amanhã é domingo
vou dizer dos casais na calçada,
das novas estirpes que povoam meu hálito,
das meninas que tripudiam meus olhos.

porque amanhã é domingo
esticarei a noite. o sábado de vinícius
dirá de quantas mulheres e homens
são feitos os amores e os atos de pedra.

porque amanhã é domingo
ouvirei os sinos da vila de minas,
pisarei as ladeiras da vila de minas,
perdoarei, em definitivo, todos os pecados.

porque amanhã é domingo
e o domingo,  vasto.

(pelos encontros de sábado)

31 agosto, 2008 at 9:59 pm 2 comentários

entre poetas

essa menina bonita
tão bonita que me mata
é filha de um certo luís
com uma tal de renata

essa menina, ai de mim!
inteligente e formosa
é filha de um bandolim
com uma mãe amorosa

pra findar esse versejo
e controlar o meu ai:
essa menina não engana
é mesmo a cara do pai.

(para a bibi, poeta)

24 julho, 2008 at 10:58 am 10 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – IX

onde o instante da vaca é universo
onde o estado do boi pode caminho
a rua do seu corpo é só poeira
o valo do seu corpo é vau-de-rio
bandeira no horizonte é saia morta
que faz marruco (dizer) estripulia.

manuel carrega em pelo o horizonte
e sempre diz de ser belo vaqueiro.

29 junho, 2008 at 12:45 am 3 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – VIII

se cada um valesse por cerrados
os bois, manuel, seriam mais velozes!
o cavalo, estreito no seu corpo,
seria sua roupa matinal.
os bois, manuel, são pura transcendência.
e o espaço que lhe sobra, pura noite,
diz, singela, gargantas de eloqüência
e nitidez velada, mão afoita

de ver facão vazado de espanto
coser a pele de homem e coser
o boi, manuel, revela cada encanto
que nosso corpo não cabe por caber.

vadio manuel estrada
vadio manuel daqui
manuel, estampa e gargalo,
manuel, estrago e

buscado saber da morte
por garrucha e devaneio
estrada é morte de outrem
cavalo, estrada e

estrada, manuel, tem morte
que nunca chega no fim
nos cabe o espanto da morte
(nos cabe a morte e o espanto)

26 junho, 2008 at 12:07 am 3 comentários

apropriação

renata: hoje sou eu que me aproprio do seu verso.

o manto que aquece
é o mesmo que aprisiona
o corpo que adormece
é o mesmo que abandona
a mão que diz a prece
é a mesma que sodoma
a boca que te tece
é a mesma que te toma

23 junho, 2008 at 12:02 am Deixe um comentário

quero dizer que manuelzão foi boi – VI

manuelzão bebeu, de sede,
02 águas de 02 rios.
amontado num pavio
virou augusto matraga.
quando bebe este quilate
manuel quase que late
destravado, tudo luz
de beber num arremate.

sua sede desmanchou
03 procela desabada
em viola, trupicou
fez o olho ser nascente.
arrancou melhor com o dente
que à faca. extasiado.

noite. sombra pelo rio
de manuel, largo e profundo
manuel, maior que o mundo,
bem menor que manuel

manuelzão desassombrado
pensando saber da vida
lambia cada cerrado
sombrava, pura alquimia.
na alma, cada bezerro.
no corpo, cavalo cada.

22 junho, 2008 at 12:15 am 2 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – V

tenazes de manuel são como poldras
que sopram, juvenis, qualquer cidade.
manuel se faz de rubro cavaleiro
que carrega ademanes no seu ventre.

onde manuel latiu foi que se soube
do cão que travessava sua alma.

e por manuel se fez alma empenada.

o vento do facão recorta o mundo
em quadras. almas amenas,
duras espadas.

“se bezerro fosse noite
eu não mudava daqui”.

21 junho, 2008 at 12:50 am Deixe um comentário

quero dizer que manuelzão foi boi – IV

este manuel é teso e o cavalo
(um) puro arreio que mistura o tempo.
viés de sua garganta traz garrucha
e valo de extensão desesperada.
sertão lhe vale quanto, o olho, o estado,
contém o corpo em gado, cada veia.

quando manuel se vê desesperado
é que montanha lhe redou o corpo
pela planura que sempre carrega.
quando manuel desdiz é que foi solto
o bicho contendor de uma vingança
vazada na garrucha e no ferrão.

quero dizer que manuelzão foi boi.

20 junho, 2008 at 2:42 am Deixe um comentário

(zé limeira incarnado)

zé limeira se apoitô
na cadera do inforcado
quem dá remédio é dotô
quem leva o tiro é o viado
limeira num caducô
eta trem bão de danado.
dona renata chegô.
limeira tá constipado
quem carrega uma fulô
num sabe de delegado
são francisco se abraçô
com um bicho brabo danado
quem acha que é cantadô
contra o limeira é coitado.

19 junho, 2008 at 8:14 am 5 comentários

(zé limeira)

zé limeira ao seu dispor
do tino, retino, tinta
meu olho caiu no amor
duma cabrocha sem pinta.

burro velho é picadero
da falsa ilusão da varge
quando avança, home soltero
enfrenta mestre bocage
o seu brilho verdadero
é pior que a pior laje
briga de sombra é cuero
bestera poca é bobage
ingrisia de barbero
é pra fazê malandrage
moleskin, caneta, isquero
me dispido nessa marge.

19 junho, 2008 at 12:09 am 2 comentários

impacado

zé limeira aferruô
um menestré de biriba
uma cobra impacô
bem pro lá da paraíba
dona meg se chegô
coloco tudo de riba.

19 junho, 2008 at 12:01 am 5 comentários

manuel se fez verdade por cavalo

o manuelzão foi o vaqueiro que conduziu o guimarães rosa pelo sertão de minas gerais. o rosa escreveu um livro sobre ele, “manuelzão”.

várias décadas depois nos tornamos amigos e viajamos muito, juntos. ele morreu em 1996, com 92 anos. falo sempre dele, o grande vaqueiro.

sua história é intensa. gosto de dizer que o guimarães rosa é um dos personagens do manuelzão.

18 junho, 2008 at 8:26 am 2 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – III

ser boi, cone e pedal, pode ser grave
se em manuel remete antecedências.
o espaço que revelo é pura noite
de solidão, cerrado e eloqüência.

o árido instante, extrato e muro,
requer o olho atiçado: ventre
do galho traz mais decisões.
se o espaço brumoso de manuel

requer seja o cavalo puro intento
de reaver o tanto já perdido.

toda querela não cabe imensidão.

18 junho, 2008 at 6:00 am Deixe um comentário

quero dizer que manuelzão foi boi – II

o texto é naufrágio e é silêncio.
quando da pedra salta-lhe uma cabra
seu dia contado vê-se rubro.
a pele vermelha do ar solta-se
em vigores. uma poesia carrega
sempre outra. cada grão avalia
o extrato como podre. querelas
são fontes de desejo. e os desejos,
noites.

preso dos olhos, manuel é cumieira.

17 junho, 2008 at 12:28 am 2 comentários

quero dizer que manuelzão foi boi – I

declaração de princípios (manuelzão)

1 – “as coisas boas sempre vêm na memória. mas a ruim tá encostada de lado”.

2 –“quando o jiló ficar doce
quando o açúcar amargar
quando deus deixar o mundo
eu deixo de te amar.”

3- “nunca vi encruzilhada pro inferno.”

4 – “tudo ele queria saber a finalidade.”

5 – “a sobra que sobrou.”

6 – “eu nunca achei nada pouco
ou muito que chegasse pra mim.”

7 – “ela tava mais no rumo
de entender o que eu queria.”

8 – “sangue cuaiou, acabou.”

9 – “uma santinha dessa posição.”

10 – “a brincadeira saiu e rendeu demais.”

11 – “o negócio é todo às avessa.”

12 – “servia para lascar um pau-de-lenha.”

13 – “teve vez da barriga não caber.”

14 – “só acredito no que vejo.”

15 – “medo? num sei o que é medo.”

16 – “cão chupando manga.”

17 – “promete esse mundo e a metade do outro.”

16 junho, 2008 at 12:10 am 6 comentários

canto para amar carlos scliar

“eu devo tudo a todos” ( c. scliar)
“sou rico da experiência de todos os homens de todos os tempos” ( c. scliar )
“são desenhos de salvação” ( c. scliar)
“eu pinto o cheiro das flores”(c. scliar)

1 .
carlos, tamanhos,
do cone sul.
um carlos tango,
carlos gardel.
um carlos tanto,
luis carlos prestes.
carlos, nascido
carlos scliar.

2 .
boca do monte,
santa maria,
o horizonte
é só colagens

henrique fala
fala cecília
vamos nascer
carlos scliar

quantos carlitos
se fazem soltos
pelo brasil
naquele instante?

quantos brasis
se fazem em homens
como aquele
carlos scliar?

3 .
riscos no muro, rebelde, cinco anos
carlos traça seu traço de protesto.
carvão na casa, pela casa toda,
scliar se mostrava e se dizia.

amigo mais amigo, se formava
fraterno mais fraterno, se fazia.
scliar libertava em cada olho
o contido no mundo. mais, ficava.

4 .
arme e desarme, carlos
é paixão
tua guerreira
mão que permanece.

é o espaço do teu olho, todo vivo
é a rendição das gentes ao teu ato
a vida que pulsaste pelo mundo
a fervura dos olhos que disseste.

a terra que te coube foi o mundo.
o corpo que te guarda é o mar.

arme e desarme, carlos
é paixão
tua guerreira
mão que permanece.

5.
de só scliar  vou  dizer ainda
quanto de infante fez sua poesia
quanta poesia fez seu estar solto
e, quando solto, produziu verdades.

azul do olho, fez seu bule, rastro
de homem que do povo relatou a alma.
perguntou quando, quem, onde, porque, ainda
fez afirmada em tela a causa justa.

se do operário reluziu façanha
de escravo negro denunciou negócio.
a vida, o homem, foi seu todo ato
de só pensar e traduzir-se todo.

plantado pela guerra entre desastres
ressarciu-se na vida de uma gente
recompôs-se no campo da paisagem
construiu, do desastre, um ser tamanho.

superar tormentas foi seu ato
todo tempo, buscado e traduzido
relatou o gesto nu do homem
de desmontar mas algo pôr, por sobre.

6.
a.                                                                        d.
há pouco, scliar                                                  vê seus exatos
fez-se de morto                                                 gestos em prumo
para fazer-se                                                      pelos telhados
carlos scliar                                                        plenos do mundo

b.                                                                       e.
quem já lhe sabe                                               vê suas entranhas
quem o conhece                                                reinterpretadas
vê suas mãos                                                    na luta louca
por ouro preto                                                   vida vivida

c.                                                                        f.
vê os seus atos                                                 vê seus amigos
no casarão                                                        plenos de olhos
que interpreta                                                    plenos de ouvidos
por cabo frio                                                      das suas falas

7.
qualquer pedra pode ser carlitos
qualquer luz pode conter sua fala
e a luz que se traduz em ouro preto
de certo tem sua mão, daqui se vê.

8.
scliar fez conosco a brincadeira
de ir-se, como quem nos deixa soltos
de pensar retribuir sua ironia
pensando ser verdade o que ele fez .

decidiu fazer-se cinza pelo mar
e brincar de ser peixe em profundezas
que aqui, inatingíveis, não sabemos.
daí virá, exato, álbum da vida.

decidiu fazer-se saibro pela terra
traduziu-se em  estrada de outra parte.
e decidido fica neste canto:
scliar não morreu. homem não morre.

13 junho, 2008 at 8:00 am 4 comentários

sangria

“Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavra que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”

Clarice Lispector

o desafio é escrever
neste nível.
beleza intensa,
densa,
amargurada.

nada é tudo,
tudo é nada.
pura água
clarice.

sangue esfolado
na veia.
teia de aranha.
fundo,
o poço é o mundo.

a pedra resvalada
no corpo
pisa o vazio.

13 junho, 2008 at 12:01 am 2 comentários

se do amor

se de amor eu canto o meu, somente,
na podridão da terra, entre brados tamanhos,
os tempos que perdi foram antanhos
e cabem no meu corpo já fervente.
brados passaram, em dores e mortalhas,
pisos vadios, estados diferentes.
eu peço, amor, do teu amor migalhas
que possam abismar todas as gentes.
vilão, daqui, em campo de batalhas,
só me atormenta a espada do vilão
que sem saber me cobre. indiferentes
do que me dói, os corpos destas terras
nem sabem o que dão e se me dão
alguma luz pra me tirar das trevas.

12 junho, 2008 at 2:00 pm 6 comentários

apossado

o amor chega
te aplica uma gravata destravada,
te morde até o tudo ser um nada,
te arrebenta a veia chamuscada.

o amor chega
te diz uma razão sobressalente,
te esmurra o queixo até quebrar um dente,
te faz se ver um verme de repente.

o amor chega
no salto estapafúrdio de um cavalo,
no canto estarrecido de um galo,
no estertor de um sino só badalo.

o amor chega
sem avisar de nada e chuta a porta,
sem perguntar se alguma coisa importa,
sem se inteirar se é viva ou se é morta.

o amor chega
da garganta traduz um brusco vento,
do estômago teu faz um tormento,
do intestino realiza o excremento.

daí, então
banguela, idiota a entender de nada,
chegado o amor, esqueces, e demente
num esforço frouxo que te sai dormente
ainda tens força pra gritar: amada!

12 junho, 2008 at 12:00 am 4 comentários

a véspera

Amanhã, no Dia dos Namorados, confiram dois poemas inéditos de RR, sobre o amor. O poeta prepara um novo livro sobre e do amor.

me sugeriram escrever um livro só com poemas de e sobre o amor.

amor é um tema brabo. e tem o camões e o shakespeare e o neruda e o vinícius e outros tantos, grandes, grandíssimos, que abordaram o tema-sentimento de forma fervorosa.

daí, como gosto de desafios, topei.

11 junho, 2008 at 12:03 pm 5 comentários

paralelepípedos

apesar de tudo, sobrevivo. me tonteiam. conhecer a
vida de perto dá medo. de cada, relato um atropelo.
minha raiva perdida sobra mundo. dos cães
retomo a substância dos cães. quando ser noite é revelação?
as mãos tecem o que lhes vale. sobram rasos.
os olhos de ouro preto são meu corpo. de pontes, marílias,
contos e cabeças, componho a sobra. uma cidade concreta,
dura de instantes. o olhar do aleijado calejando becos
montanha sobre montanha. cada palácio tem seu prisioneiro.
nada aqui passa. mesmo os cavalos de felipe dos santos
pisam as ruas. ainda. basta ver.

(ouro preto para renata e luis)

Praça Tiradentes, por Eduardo Tropia.

6 junho, 2008 at 12:00 am 2 comentários

misturinha

renata: misturei você com o vinicius.

eu sofro no escuro, eu sofro o ausente
que é a forma de sofrer por certa gente

eu sofro nas entranhas, eu sofro nos vazios
que é a forma de rasgar todos os rios

eu sofro pela luz, eu sofro pela treva
que é a forma de tratar todo o leva-

do corpo, a ânsia toda, a imensidão
que é a forma de varrer a podridão.

eu sofro no escuro, eu sofro o ausente
de repente, não mais que de repente.”

5 junho, 2008 at 1:04 pm 4 comentários


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