Posts filed under 'Avulsos'
poeta e noite
fênix:
a partir das insônias, fiz.
poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam.
há um poeta assim, em cada canto,
no redemunho do espanto que revelam.poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão.
os dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados.
ao percorrer as noites pelas frestas
poetas são destroços renegados.
30 comments 15 Fevereiro, 2009
todo sertão é um caldo de tortura
o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.
29 comments 26 Janeiro, 2009
para renata
eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã,fel em mim,
entope minhas veias.
quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes,os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.
31 comments 22 Janeiro, 2009
cantiga de roda
(para mãe e pai encantados)
é uma cantiga só
de um poeta na estréia
nasceram bibi e dodó
as flores da paulicéia.
a mãe é mãe amorosa
o pai, violão, bandolim
bibi com a face da rosa
dodó com a cor do jasmim.
bibi, beatriz, abelha
dodó, de caymmi, dora
uma, na ponta da telha
outra, na pele da aurora.
8 comments 7 Setembro, 2008
domingo
“porque amanhã é domingo” (l.n.)
porque amanhã é domingo
vou dizer dos casais na calçada,
das novas estirpes que povoam meu hálito,
das meninas que tripudiam meus olhos.
porque amanhã é domingo
esticarei a noite. o sábado de vinícius
dirá de quantas mulheres e homens
são feitos os amores e os atos de pedra.
porque amanhã é domingo
ouvirei os sinos da vila de minas,
pisarei as ladeiras da vila de minas,
perdoarei, em definitivo, todos os pecados.
porque amanhã é domingo
e o domingo, vasto.
(pelos encontros de sábado)
2 comments 31 Agosto, 2008
poesia
é a única forma escrita na qual sei me expressar, então representa um desafio no sentido de realizar uma comunicação pessoal. e especialmente esse gênero me atrai por ser uma fonte de busca de uma linguagem nova. desde sua origem a poesia traz como marca o fato de ser um campo de surgimento de expressões renovadoras da linguagem.
4 comments 18 Agosto, 2008
entre poetas
essa menina bonita
tão bonita que me mata
é filha de um certo luís
com uma tal de renataessa menina, ai de mim!
inteligente e formosa
é filha de um bandolim
com uma mãe amorosapra findar esse versejo
e controlar o meu ai:
essa menina não engana
é mesmo a cara do pai.(para a bibi, poeta)
10 comments 24 Julho, 2008
opará
sempre que vou ao recife e vejo seus rios, penso: são os rios do joão cabral. capiberibe, beberibe.
e, de alguma forma, acho graça: o meu rio é maior que os dele. o são francisco.
em alguma coisa eu quero ganhar do “poeta maior”.
3 comments 11 Julho, 2008
ferro e ouro sempre se vê por aqui
minas é montanha, em parte. outra é cerrado e planura.
eu sou trânsito.
8 comments 3 Julho, 2008
apropriação
o manto que aquece
é o mesmo que aprisiona
o corpo que adormece
é o mesmo que abandona
a mão que diz a prece
é a mesma que sodoma
a boca que te tece
é a mesma que te toma
Add comment 23 Junho, 2008
(zé limeira)
zé limeira ao seu dispor
do tino, retino, tinta
meu olho caiu no amor
duma cabrocha sem pinta.
burro velho é picadero
da falsa ilusão da varge
quando avança, home soltero
enfrenta mestre bocage
o seu brilho verdadero
é pior que a pior laje
briga de sombra é cuero
bestera poca é bobage
ingrisia de barbero
é pra fazê malandrage
moleskin, caneta, isquero
me dispido nessa marge.
2 comments 19 Junho, 2008
minha ouro preto é feroz
há urubus que passam no meu corpo
de ruas de ouro preto.
cada uma se revela estado de um mapa
que ruma pelo caos e ruma
por olhos do dezoito. há muito,
quebro estas ruas, estas voltas soltas,
num ar aonde o ouro, por oculto,
se fez em revoltas resolutas.
(per augusto)
2 comments 15 Junho, 2008
sangria
“Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavra que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”
Clarice Lispector
o desafio é escrever
neste nível.
beleza intensa,
densa,
amargurada.
nada é tudo,
tudo é nada.
pura água
clarice.
sangue esfolado
na veia.
teia de aranha.
fundo,
o poço é o mundo.
a pedra resvalada
no corpo
pisa o vazio.
2 comments 13 Junho, 2008
passagem por scliar e ouro preto
verdade mineira de dizer scliar: difícil de tão fácil, relato-me e o
relato: do mineiro que sou ao gaúcho que vê ouro preto de ouro
preto, gaúcho que me descobre a ouro preto que não vi: retilínea
que eu vejo barroca. scliar analisa o tempo íntimo do tempo.
caminho-lhe a fala, de hoje, entrado, leio a palavra na paisagem:
“arme e desarme
a paisagem é outra
e a mesma
e você é o mesmo
e outro.”
armo e desarmo, sou o mesmo e outro. a paisagem: scliar e ouro
preto, outros. a paisagem: scliar e ouro preto, mesmos. sclair é fé:
estou com ele.
prestes homenageado, traço scliar, traço niemeyer. desenho e
palavra mostram a vida tanta: prestes 90 anos.
percorro trípticos, agitado, um. calmo, outro. tensão-dimensão: o ato
compulsivo-dialético do homem. O homem que scliar acredita.
caminho por flores de racionalidade. a flor de racionalidade em
scliar é emoção. cada gesto, domado. cada emoção, domada. domados,
emoção e gesto pulsam, scliar relata: “eu pinto o cheiro das flores.”
quadros claros: esta maior última de scliar. ao “sermam de terceyra
dominga” scliar soma: “e agora.”
ouro preto volta: casario sobre tela. ouro preto volta: gravura com
o grito-bandeira de manuel bandeira que scliar agita:
“meus amigos
meus inimigos
salvemos ouro preto”
corto:
“meus amigos
meus inimigos
salvemos a luta de scliar.”
por cartazes e livros, scliar gráfico apontando caminhos. mesmo
de assinar. assinatura-traço-poema: concreto-pôr-sobre.
ultra-pássaro scliar
liberto tanto
ave!
O poema acima faz parte da exposição Scliar – 80 anos em formato de painel – 160 x 220 cm
2 comments 10 Junho, 2008
(ao affonso ávila)
ponte azulada. contos.
pela casa espalham documentos
tal e qual fossem eles os ungüentos
salvadores de cláudio na escada.
como affonso dedilha sua lira
pelos esconsos flagrados de escravos
a multidão em repulsa solta uns bravos
rugidos que incendeiam aquela pira
molhada de luz. soubesse eu dos versos
de cláudio na manhã em que morreu
diria aos ditames do reinado
cláudio é eterno: o rei enlouqueceu!
condenaria o rei a varrer pedras
e brumas da vila de sempre. em seu reinado
as pragas o teriam mutilado!
(ponte: contos)
(per augusto)
Add comment 9 Junho, 2008
sou, por meus inteiros, vários
estas manhãs que chegam pelas costas
nos trazem um poder sobressalente.
o ciclo biológico se fecha
em queixas e cardumes.
as faces, duras pedras de pó carcomido,
trazem visgos.
quando olho a montanha
refaço-me
sou o que trouxe o osso da cadela
nas mãos.
meu estômago é leve, o intestino, bruto.
posso roer manhãs como moradas
a cabra que alimenta meu coração
tem um salto de potro, um estado
de cão louco, uma avidez de flecha
se penso a noite, a refaço pelas beiras.
os rios que me ruíram as sobras
não são vestais: são curtidos de visgos,
águas barrentas.
uns lençois baratos recobrem meu silêncio.
um ananás do passado mostra a lucidez do meu corpo.
não vim ser anjo,
vim ser estardalhaço!
(para patrícia, o que sou)
6 comments 8 Junho, 2008
dos habitantes internos
Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustoso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo salvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e ai. Aviso tambem que nao se deve temer seu relinchar: A gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.
Clarice Lispector
tenho certeza de que a clarice foi habitada por um cavalo selvagem.
minha imagem é de um cão perdido. nem mais, nem menos. nunca me vi capaz de conter anjos, sequer tortos. que me desculpe o drummond : sou “gauche” vital. sem comunicação.
há umas profundezas que namoro numa paixão incontida.
Add comment 7 Junho, 2008
ouro preto, minha
vou consultar
os remendos da pele da cidade.
vista sua alma, seu corpo,
já lhe sei das mazelas.
quando olhada,
seu fígado se mostra lavrado por tenazes
de homens insensíveis.
sequer sua moldura foi mantida.
cães, sem ofensa aos cães,
trataram-na como boi morto
a ser comido em voracidade.
pouco lhe sobrou dos caminhos.
cabe saber, se rôta,
sua pele não é descartável.
cabe saber, se quebrados,
seus órgãos mantêm vida
a ser recomposta.
e saber, ao final,
se as mãos escravas que a montaram
terão os olhos daqueles que a habitam.
(per augusto)
5 comments 7 Junho, 2008
pontes, ouro preto
as pontes que martelo e que atormento
carregam uma espécie de ungüento
que vila rica deixou em cada delas.
o sujo, o não calado, o renitente
perderam a vida, a mão, a língua, o dente
por discordar do que havia sobre elas.
quantos soberbos sobre as pontes disfarçaram
suas viagens de quem nasceu do ouro
e o ferro em apetite aguçaram.
tiveram, em pindorama, estes senhores
que carregar na consciência, se a tiveram,
o grito amargo das dores que causaram!
(de quantas pontes vive ouro preto?)
4 comments 4 Junho, 2008
