Archive for janeiro, 2012
minha poesia está solta na vila
sou o poeta canônico
das estrofes adversas, dos terrenos baldios
dos dezembros de osso e pedra.
elevo a inflexão nos sonetos
como um antônio das mortes.
os loucos e os bichos me ouvem.
já fiz orações a vieira, a antônio de pádua
aos apóstolos pedro e paulo
a vinicius e baden.
rezei com os tincoãs na freguesia
e os muros lavaram os meus horrores.
minha poesia está solta na vila.
romério rômulo
eu sempre fui ao coração das coisas
eu sempre fui ao coração das coisas
revelei minhas tripas aos insensatos
e velejei pelos mares mais torpes
em busca da ciranda.
parti todas as lanças que me mandaram
e, no último instante, arremessei meus ossos
no lodo.
quando virem um ser penado
uma vaga incandescente nas valas
contem certo:
sou eu atravessado nos pastos.
romério rômulo
a sua pele branca de algodão, 1
a sua pele branca de algodão, 1
não fujo de uma rosa dolorida
nem quero a solidão tumultuada.
para morrer eu só carrego a vida.
romério rômulo
montar a musa, 1
montar a musa é um estado lindo
por só cair em exercício findo.
os pedestais, coivaras e delírios
são pontes soltas pelos meus martírios.
quanta poesia rebelde e insensata
já me queimou na esfera correlata!
romério rômulo
anjo ruivo
há
um anjo ruivo
que decide a noite
escava gavetas
faz o translado dos dentes
cuida das pontes
arranca os medos e os berros
um anjo ruivo
que varre e acerta bandolins
aperta poetas vadios
diz o nome dos bois
arranca os aços da vida
um anjo ruivo
que lava
a poesia ressecada.
romério rômulo
fragmento, 1
fragmento, 1
quando eu morrer amanhã, não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como van gogh
e um afro-samba travado de vinicius.
romério rômulo
