Archive for julho, 2011
amor 5, 6, 7
5.
o amor é faca sem corte
te faz promessa, te beija
te retalha, te esquarteja
te sangra perto da morte.
6.
o amor é riso, depressão, paulada
concerne sempre a um estado puro
onde o tratado, cada vez mais duro
faz do meu corpo gado de invernada.
7.
há um amor. e ela é minha amada
temos, os dois, o mesmo endereço
tudo funciona, que na nossa estrada
um vê o outro sempre pelo avesso.
romério rômulo
maradona foi gol num palavrão
1.
o caminho da vida é ato duro
que remete feroz à contrição
maradona em estado de cão podre
foi feliz por lavrar a solidão.
2.
pela fresta do mundo e adjacências
desmontado do puro vendaval
num bocejo de graves consequências
maradona vestido de água e sal
3.
fez valer suas éguas e aparências
na corrida arcada do sertão
numa perna outra perna de evidências
maradona foi gol num palavrão.
romério rômulo
rivotril, 9 (per augusto)
“profundissimamente hipocondríaco”
só bebo rivotril pelo gargalo.
a minha mão esclerosada em calo
não se retrata em verso elegíaco
ao me mostrar a vida pelo talo.
eu, filho do carvão e do amoníaco.
romério rômulo
corpo, 2
flor, paisagem, rosto, concha, tela
com o cio a pisar nos meus ouvidos
essa mulher é um riso e uma cadela
seu sopro e sua carne, eu caibo nela
e ao me tomar o corpo de ruídos
ela me monta, me torce e me atropela.
romério rômulo
cordel para Maradona, 1 (osso do sertão)
1.
por tudo maradona é o mais santo
dos deuses argentinos de gardel
sua lavra seguida, seu tropel
fazem campos sair das evidências
se o fulano o abastece de premências
ele é o deus mais cantado do cordel.
2.
já o vi retomar abstinências
numas falas de santa criatura
só moldada a aço e angustura
pra deixar no troféu sua missão
ele é indio, estádio, perdição
um petardo suspeito de clemências
com uma bala de crua arquitetura
dom diego ferreira lampião.
3.
foi o dono dos pontos cardeais
quando em sul manobrou a sua mão
uma santa criatura em pedestais
alagados de tangos argentinos
viva zeus, maradona, esse menino
que ao mundo só trouxe redenção
um irmão, o mais moço, em virgulino
com a bala feroz de lampião.
4.
o pavão misterioso foi atado
maradona é o osso do sertão.
romério rômulo
a mão de picasso, 1
a fala do meu corpo em seu mormaço
se fez medir no pulso reticente
ao me fazer mostrar cada pedaço
quanto eu devo à treva, um penitente
por me saber cavalo e cão, bagaço
da minha mão caída de dormente?
se as estradas trovejam por meus guias
cavalo e cão e boi, estardalhaços
todos os ossos comidos de atrofias
só vão arder mordidos e devassos
num erro extasiado de picasso
peguei na sua mão tardiamente
o mundo é o rastro final de um estilhaço.
romério rômulo
