Archive for julho, 2010
” vejam bem ” ( para zeca afonso )
” vejam bem ” ( para zeca afonso )
é difícil o caminho do corpo,
mais estranho é o caminho do pão.
são estradas, vieses malditos
repisados e feitos à mão.
as estradas do corpo, aventura,
velhas carnes postadas no chão
são estradas ardidas, agrura,
entranhadas no teu coração.
quando o vale da noite ensurdece,
acontece na vida um desvão,
todo o pão se resvala na noite
que te sobra na palma da mão.
romério rômulo, julho/2010
“o vermelho de van gogh”
teu amarelo, van gogh, é o espelho
do que corrói o peito em ânsia pura.
teu amarelo, van gogh, é meu vermelho
purpura o sangue e ainda me purpura.
teu amarelo, na noite, está esguelho
solto de corvos estrelados, noite.
teu amarelo, van gogh, é meu vermelho
purpura o sangue e a minha carne. foi-te
da agonia o antro. com um tiro
de amarelo e trigo em tua carcaça
por meu vermelho me resvalo e miro
o peito torto, feito de desgraça.
“o ato continua”
no primeiro dia
sangrei.
umas telhas me atravessaram,
arrancaram meus olhos
e me trouxeram solidão.
quantas casas habitam meus ossos?
quantas candeias armadas vão levantar minha essência?
quantas estradas vazias pousam sobre minhas estradas?
mesmo os cães me trucidaram.
o olho no céu me rompia em chuva.
deitei com umas verdades sombrias na pele.
no segundo dia,
desarmado,
vi as rupturas da intempérie,
uns cupins a pisar tormentas,
meu olho calmo com a luz do mundo.
como sangram os homens!
em dois dias me renovo
e a guerra travada nem é tão intensa.
as palavras me batem em tiros de canhão
e as reconheço palavras.
o ato continua.
sou outro.
“quando um cavalo chega e traz retalhos”
uma mulher que ama algum cavalo
só pode ser musa cruel.
os lábios que eternizam o seu amor
são as retinas duplas do animal.
quando o cavalo chega e traz retalhos
de úmidos capins e de seus pelos
essa mulher, loucura entre os cabelos,
alarga tudo e deixa-se em metal
candente e secular. a agonia
do seu corpo eriçado de tormentas
se fará toda numa cor magenta
e sangra um sangue de suor e sal.
(me caber em cada)
o poema, moça bela, é um entulho
que peço me caber em cada canto
do corpo, essa estrada, meu espanto,
meu quebranto de escuros, meu engulho.
o poema, moça bela, é um reboco,
uma tela que cobre a tarde nua.
cada poema que piso é uma rua,
imensidão de mãos, como num soco.

