Archive for janeiro, 2010
moer todo o corpo
deixa o vento pisar na tua alma
faz a pedra moer todo o teu corpo
ri da lua, ismália enlouquecida,
vê a rua cair boquiaberta
se teus vales sonoros regurgitam
de amores vãos, latentes peitos
diz das flores, espaços que evitam
línguas mortas, instantes escorreitos
fala mais de alfa e de ômega.
se valessem as bocas instaladas
na rudeza atroz de alguma entrega
fosse toda a cidade resvalada.
furacão, grosso chumbo de loucura,
sobra o quê de um corpo na tortura?
(moer todo o corpo)
[Per Augusto & Machina]
a vida pela vida se me doa
carrego a morte. o rumo que lhe dou
tem a atroz adjacência de montanha
que, carga sobre carga, se arreganha
pelo caminho, espaço do meu vôo.
quando felina a morte me atordoa.
(a vida pela vida se me doa)
[Per Augusto & Machina]
da tua solidão
pretendo traduzir teu labirinto em corpo.
é escasso meu dever de ser feliz.
quando pulso à noite, me desvio
da tua solidão, pânico puro.
purgar a vida, traduzi-la toda,
meu desígnio por ti se escasseia.
cabe mais, o utópico do mundo
retraduzir teu mundo em minha veia.
se teu hálito de todo se evapora
por quando ser meu corpo se sustenta
plural o olho da vida se enamora
a cada instante da morte que inventa
ser quanto ser, pedra cortada, tida
meu recato brumoso, estardalhaço,
de tudo que lavrei me sobra a vida!
(da tua solidão)
[Per Augusto & Machina]
todo sertão é um caldo de tortura
o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante à noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
e quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.
(todo sertão é um caldo de tortura)
[Per Augusto & Machina]
ave!
filhote da nobreza rural
que se destaca na lente e no machado
revida os ancestrais golpes soezes,
tartamudos, vitantes. galos
jazem na sua falha de dentes.
ave, mãe terra!
os que te têm, te saúdam!
(ave!)
[Per Augusto & Machina]
louco,cimentado
o meu cabelo é louco, cimentado
por cabedais em tudo transparentes.
carrego umas vogais de acessório
pra desditar poemas de indulgência.
o beijo, amigo, é a véspera da fome
que nos percorre: josés, joões, sem nome
sem consoantes uns, consonantados
outros. bêbados, invertebrados
da sanha do mundo. ruidosos calos
nas mãos de enxadas e assobios
suas visões são uns caudais de rios
que regam o mundo todo de abalos.
numa aparência louçã, insandecida
vou rebelar a noite de vestais
nuns sobremodos de maus modos tais
que até a morte vai se ver na vida!
(louco,cimentado)
Per Augusto & Machina
beira-mar e outros
somos loucos da estrada. nosso pasmo
resvala todo por noites e favelas.
nosso trio flanado nas prisões
vê o pó que sucumbe os destinos.
quantas pragas velamos? quantos somos
na poeira das vidas? quantos nus
se fizeram sobre nós? quantos, tantos
foram os ossos esmagados sobre?
a pura idéia, somos tão imensos, de
tantos braços soltamos sobre vidas
pálidas vidas, perdidas entre pragas
tantas vidas temos. tantas vidas!
(beira-mar e outros)
[Per Augusto & Machina]
