Archive for setembro, 2008
(abertura)
uma poesia deserta, texto de pedra e secura.
poesia de ferreiro: metal e martelo.
uma poesia brasa candente. cozer tudo,
ato do verso, dure tanto ou nada.
(aços tua viagem)
se as entranhas da terra te atropelam,
resta o veio da manhã, a pedra,
o dedilhado de montanha que te lambe.
falta tua memória de noite, teu fazer
de nuvem, tua viagem de eito.
aços convirão sobre teus ombros.
feroz, manhã há de lamber tua boca.
texto de pedra
uma poesia brasa candente. cozer tudo,
ato do verso, dure tanto ou nada.
(levantar poço e água)
buscar os bois do meu campo, uivo, latido,
guardar os animais da memória,
latir uma cavalo potro ressequido,
levantar a água esguia do poço,
saber uns baldes de tanto cansaço.
tudo é ausência de cerrado.
avós de diamantes, tesouros monásticos,
assembléias de escravos, podem ser razão
de minha ausência.
uns valos de bois, umas manias de cavalo
chucro,
um atar de cachorro louco.
luzes e bois, fundidos, se rebatem.
per anima
per anima! fraqueza e indolência
vertebram este corpo.
quando deles nascem ruídos
a mata estrepitosa permanece.
o lombo do olho, a face reservada
dizem sabedoria. se estar no canto
estabelece verdade, sobra à tarde
resguardar silêncios.
o corte da pedra, a faca, um elefante
de noite se estabelecem no ventre
como bravos. a pura cidade
é permanência.
cada luz
um ventre desvairado.
(proprietários de heranças)
qual ser dono de metade da pedra
é o desejo. quandos se mostram
cerdades atalhadas de medo.
um sumidouro de ladeiras
fez o cerrado caber no palmo
que instante de fé.
obuses nos sufragaram
a garganta tênue de águas.
umas várzeas olharam sono
de estalo. deuses fizeram do riso
a arma. as almas gritaram
poças de areia como inferno.
sobraçaram em regaços. outros.
frugal
me cabe mostrar
a densa face do meu rosto,
a tênue dança do meu lábio,
o rastro duro de uma ânsia selvagem.
cantiga de roda
(para mãe e pai encantados)
é uma cantiga só
de um poeta na estréia
nasceram bibi e dodó
as flores da paulicéia.
a mãe é mãe amorosa
o pai, violão, bandolim
bibi com a face da rosa
dodó com a cor do jasmim.
bibi, beatriz, abelha
dodó, de caymmi, dora
uma, na ponta da telha
outra, na pele da aurora.
delírio quase louco, desdourado
despir o corpo das pedras da polêmica,
andrajos de palavras, soletrar um
tempo de rosto que desvenda a noite.
(uns brilhos arregaçam manga)
esquadros retropeçam minha noite.
astros delgados assobiam os orvalhos.
acauã surte efeito de praga
na saliência das ruas.
uns brilhos arregaçam manga
e dizem vento.
jazem donzelas na calada de noite.
quanto uivo contém um aguaceiro?
(uns brilhos arregaçam manga)
(paisagem)
1.
aquele mar de fendas que te lasca
o corpo de sabidas substâncias
tem um rouco tinir de asa morta.
2.
velada montanha jaz rio adentro.
seus peixes de hortelã são um ofício
das telas.
verbo infiel
o gesto de palavra pode ser
algo inserido entre tumulto e mão.
(aguaças transladam húmus)
1.
temporal derrubou mais de duzentas palavras,
aquinhoou postes da mata com o chão,
tripudiou sanções do revés da terra.
águas no enxurrio trouxeram mamatas aos
bebedouros:
lava verteu fluida, massenta, lavada.
no campeamento, aves emborcadas.
e o prefeito prometeu dar tapa aos pingos.
2.
se as entranhas da terra têm vergonha
resta-lhes a ilusão de cidade.
falo por uns sentimentos desuivos, lobo aguado
de um sentimento cerrado.
galhos apodrecem na face
como frutas sobem as moitas de gente.
3.
desavos.
meu sobrenome cavalo trafega aguares.
