Archive for Junho 13th, 2008
em ouro preto
Romero Rômulo
Casa Carlos Scliar – Ouro Preto
Foto por Julia Lego
6 comments 13 Junho, 2008
canto para amar carlos scliar
“eu devo tudo a todos” ( c. scliar)
“sou rico da experiência de todos os homens de todos os tempos” ( c. scliar )
“são desenhos de salvação” ( c. scliar)
“eu pinto o cheiro das flores”(c. scliar)
1 .
carlos, tamanhos,
do cone sul.
um carlos tango,
carlos gardel.
um carlos tanto,
luis carlos prestes.
carlos, nascido
carlos scliar.
2 .
boca do monte,
santa maria,
o horizonte
é só colagens
henrique fala
fala cecília
vamos nascer
carlos scliar
quantos carlitos
se fazem soltos
pelo brasil
naquele instante?
quantos brasis
se fazem em homens
como aquele
carlos scliar?
3 .
riscos no muro, rebelde, cinco anos
carlos traça seu traço de protesto.
carvão na casa, pela casa toda,
scliar se mostrava e se dizia.
amigo mais amigo, se formava
fraterno mais fraterno, se fazia.
scliar libertava em cada olho
o contido no mundo. mais, ficava.
4 .
arme e desarme, carlos
é paixão
tua guerreira
mão que permanece.
é o espaço do teu olho, todo vivo
é a rendição das gentes ao teu ato
a vida que pulsaste pelo mundo
a fervura dos olhos que disseste.
a terra que te coube foi o mundo.
o corpo que te guarda é o mar.
arme e desarme, carlos
é paixão
tua guerreira
mão que permanece.
5.
de só scliar vou dizer ainda
quanto de infante fez sua poesia
quanta poesia fez seu estar solto
e, quando solto, produziu verdades.
azul do olho, fez seu bule, rastro
de homem que do povo relatou a alma.
perguntou quando, quem, onde, porque, ainda
fez afirmada em tela a causa justa.
se do operário reluziu façanha
de escravo negro denunciou negócio.
a vida, o homem, foi seu todo ato
de só pensar e traduzir-se todo.
plantado pela guerra entre desastres
ressarciu-se na vida de uma gente
recompôs-se no campo da paisagem
construiu, do desastre, um ser tamanho.
superar tormentas foi seu ato
todo tempo, buscado e traduzido
relatou o gesto nu do homem
de desmontar mas algo pôr, por sobre.
6.
a. d.
há pouco, scliar vê seus exatos
fez-se de morto gestos em prumo
para fazer-se pelos telhados
carlos scliar plenos do mundo
b. e.
quem já lhe sabe vê suas entranhas
quem o conhece reinterpretadas
vê suas mãos na luta louca
por ouro preto vida vivida
c. f.
vê os seus atos vê seus amigos
no casarão plenos de olhos
que interpreta plenos de ouvidos
por cabo frio das suas falas
7.
qualquer pedra pode ser carlitos
qualquer luz pode conter sua fala
e a luz que se traduz em ouro preto
de certo tem sua mão, daqui se vê.
8.
scliar fez conosco a brincadeira
de ir-se, como quem nos deixa soltos
de pensar retribuir sua ironia
pensando ser verdade o que ele fez .
decidiu fazer-se cinza pelo mar
e brincar de ser peixe em profundezas
que aqui, inatingíveis, não sabemos.
daí virá, exato, álbum da vida.
decidiu fazer-se saibro pela terra
traduziu-se em estrada de outra parte.
e decidido fica neste canto:
scliar não morreu. homem não morre.
2 comments 13 Junho, 2008
sangria
“Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavra que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”
Clarice Lispector
o desafio é escrever
neste nível.
beleza intensa,
densa,
amargurada.
nada é tudo,
tudo é nada.
pura água
clarice.
sangue esfolado
na veia.
teia de aranha.
fundo,
o poço é o mundo.
a pedra resvalada
no corpo
pisa o vazio.
2 comments 13 Junho, 2008

